2 de outubro de 2011

Conhecendo Ingrid Jonker

Ingrid Jonker, poetisa da África do Sul, que viveu muito pouco, apenas 32 anos, de 1933 a 1965, época em que o regime de segregação racial, o Apartheid (1948 a 1994) estava em pleno vigor, é a protagonista do filme Borboletas Negras (2011). Ela é interpretada magistralmente pela holandesa Carice van Houten.

Este filme biográfico traz os últimos cinco anos da vida dessa mulher sensível e intensa e da qual a maioria de nós, brasileiros, não fazíamos a mínima ideia de que havia existido. Neste recorte, a diretora holandesa Paula van der Oest evidencia a péssima relação que a poeta tinha com o áspero pai, Abraham Jonker, interpretado por Rutger Hauer (Blade Runner). Essa relação refletia o jeito dela lidar com as situações, com os relacionamentos, com a vida. Todo o desequilíbrio da poeta advém da falta de reconhecimento do pai pelo que ela é. Além de tudo, ele era grande defensor do Apartheid e membro do regime que ela abominava e pelo que podemos ver no filme, chega a ser incompreensível para ela. 

Na cena que ela está em uma praça, com brinquedos para crianças, ela pergunta a um senhor porque não vê ali crianças negras. E ele responde que é proibido crianças negras ali naquele parque. Nesta cena, é possível verificar o quanto ela não consegue compreender, pelo seu olhar, esse tipo de proibição, o quanto ela não se identifica com esse tipo de segregação. O poema mais conhecido de Ingrid, lido por Nelson Mandela em 1994 na abertura do primeiro parlamento democrático da África do Sul, intitulado The Dead Child of Nyanga (A criança morta de Nyanga) foi escrito após ela presenciar a morte gratuita de uma criança negra por um soldado do regime. Esta passagem, em que ela sente uma angustia profunda de criação, de indignação, também é retratada pelo filme. Durante toda a narrativa, a diretora nos proporciona vários momentos de criação da poeta, para assim termos contato com as imagens criadas em seus versos. Vários poemas desfilam por nós, principalmente nas paredes do quarto de Ingrid. 

Por ser uma mulher a frente de seu tempo, Ingrid não consegue lidar nada bem com o mundo que se apresenta a ela. Assim como as cenas que pontuam a narrativa, em que o mar se debate incessantemente com as rochas na Cidade do Cabo. É a imagem do que se passa com Ingrid, do que sente em relação a vida, uma alma que se debate com os sentimentos, com a falta de liberdade, principalmente para amar, para ser como ela é. Dessa forma, só poderá haver desequilíbrio emocional, fazendo com que a personagem, diversas vezes vá parar em algum centro psiquiátrico ou se retira da sociedade que não a aceita. 


Nesse turbilhão de emoções, houve alguém que a amou muito. Esta pessoa foi o escritor Jack Cope (Liam Cunningham), que a conheceu quando a salvou de se afogar no mar. O relacionamento dos dois era muito complicado, cheio de desavenças, de idas e vindas, pois a personalidade de Ingrid sufocava Jack, não permitia que ele se desenvolvesse como escritor. A convivência com alguém tão intensa o anulava completamente. Foi ele que, junto a outros escritores, conseguiu juntar em livro os melhores poemas de Ingrid e publicá-lo. 

Borboletas Negras é um filme que mostra ao mundo quem foi Ingrid Jonker. Li algumas críticas dizendo que a diretora poderia ter explorado mais a questão política, os embates da poeta com o pai, que o roteiro poderia ser melhor trabalhado, entre outras coisas. Eu acredito que a intenção da diretora não era essa, ela conta com o repertório do seu público em relação ao apartheid, não aprofunda na personalidade do pai porque a profundidade está totalmente dedicada à Ingrid. Portanto, acredito que a missão do filme foi cumprida e da melhor forma possível. Vale muito a pena ver Borboletas Negras e se arrepiar com a voz de Nelson Mandela ao final da projeção lendo "The dead child of Nyanga" e as imagens do poema aparecendo na tela. 

Abaixo, o poema: 

THE DEAD CHILD OF NYANGA


The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart


The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride
The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain
The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all África
The child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass.

7 de setembro de 2011

Os absurdos da vida em "Um Conto Chinês"

 “Um conto chinês” é muito bom de se ver. Fato determinante para que mais de um milhão de argentinos tenham se deslocado aos cinemas. Escrito e dirigido pelo portenho Sebastián Borensztein, seu terceiro longa e único que chegou ao Brasil, “Um conto chinês” é um filme simples, sem psicologismos, do tipo que nos faz bem.

A essência dessa história está nos fatos considerados absurdos da vida, como uma vaca cair do céu na China, um argentino se deparar com um chinês despejado de um taxi em plena Buenos Aires, sem falar uma palavra de castelhano, e este mesmo chinês ser o personagem de uma das notícias absurdas que são colecionadas pelo Roberto (Ricardo Darín) que todos os dias, religiosamente, as corta dos jornais. Todos esses elementos estão dispostos na história desse personagem colecionador, ranzinza, metódico que em seu momento de lazer, se depara com Jung, totalmente perdido, recém chegado a Argentina, com o endereço tatuado no braço e que posteriormente, na embaixada, ficamos sabendo que se trata do endereço desatualizado de um tio.

Ricardo Darín, um dos atores argentinos mais conhecidos pelo público brasileiro, interpreta magistralmente uma personagem à beira de um ataque de nervos. Sua irritação, seu jeito intolerante, sua forma metódica de lidar com a rotina, estão na medida certa. Não há exageros para que o espectador caia na risada. A naturalidade da interpretação, das situações, ocasionam uma identificação imediata e por consequência disso, nos é despertado o riso. E toda a doçura da narrativa está com a personagem do chinês, muito bem interpretado por Ignacio Huang, personagem contraponto de toda a antipatia de Roberto. O contato forçado entre os dois, pois Roberto se vê obrigado a ajudar Jung, faz com que uma transformação comece a ser despertada no protagonista.

Com roteiro muito bem desenhado, o filme se desenrola de forma leve e sensibilizante. Conta com a ajuda da trilha sonora marcante e ao mesmo tempo doce de Lucio Godoy (Tudo sobre minha mãe) e com a presença de uma personagem feminina que equilibra tudo, a filha de um amigo de Roberto, apaixonada por ele, chamada Mari (Muriel Santa Ana).

É filme de entretenimento cheio de qualidade e sensibilidade. Vale muito a pena assistí-lo. E ao sair do cinema, podemos dizer que de absurdos em absurdos muitas histórias são colecionadas durante nossas vidas e este “Um conto chinês” não poderia ser diferente, já que deixa bem claro que é baseado em fatos reais, pois na China, realmente, uma vaca caiu de um avião ao ser transportada por russos.