26 de fevereiro de 2011

A falta de prudência entre os seres e suas consequências em Babel

O mundo todo está interligado. Sabemos que uma ação aqui pode acarretar uma consequência lá do outro lado do planeta. Basta verificarmos as bolsas de valores e as economias dos países globalizados. Em Babel, filme do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu, de 2006, essa ligação fica muito clara. Nele, podemos verificar, nitidamente, o quanto somos responsáveis por tudo que acontece neste mundo, de bom e de ruim.

O filme evidencia as consequências ruins de um simples ato: um japonês que presenteou um marroquino com um rifle de caça. Este marroquino vende a arma a um vizinho que a coloca nas mãos dos filhos. Os filhos, imprudentes, testam a distância que o tiro do rifle pode atingir ao tentarem acertar um ônibus de turismo e a bala perfura o ombro de uma mulher americana sentada do lado da janela, mãe de dois filhos que estão nos EUA aos cuidados da babá mexicana. A babá, mesmo cuidando muito bem das crianças, está com a cabeça no México, ansiosa para ir a cerimônia de casamento do filho.Como não tem com quem deixar as crianças, pois a mãe está se recuperando no Marrocos, as carrega com ela. Na volta da festa, durante a madrugada, na fronteira entre o México e os EUA, ela e o sobrinho, que está na direção e um pouco embriagado, são interpelados pelos policiais. Ele não aguenta a pressão e rompe com a barreira, entra no deserto e abandona a tia com as crianças no meio do nada. Ela consegue socorro depois de muito tempo e é acusada de sequestro. Enquanto tudo isso acontece, no Japão, a polícia vai atrás do homem que presenteou o marroquino e descobre que a filha dele, surda e muda, órfã de mãe, é totalmente carente de atenção e compreensão.

O ato de presentear não é ruim, mas o problema é o tipo de presente, que no caso, foi um rifle. A função deste objeto nas mãos do japonês era apenas a caça, mas o ato de repassá-lo a outro, de forma imprudente, deu ao rifle a possibilidade de uma nova função. Por necessidade, este marroquino deu a ele uma função monetária. O comprador o viu como instrumento de trabalho, pois poderia matar os animais que comiam suas cabras, mas ao colocá-lo, imprudentemente, sem esclarecimento, sem educação, nas mãos dos filhos, o rifle virou arma e na imprudência da brincadeira atingiu a turista americana. O que acarretou uma série de acontecimentos.

Nestes acontecimentos, podemos detectar grandes falhas de nós, seres humanos. Preconceitos, impaciência, falta de caridade, falta de comunicação, tanto no ato de apenas ouvir quanto no ato de esclarecer, arrogância, individualismo, entre outros. Uma personagem que gostaria de ressaltar é a turista americana, Susan, interpretada por Cate Blanchet. Em suas primeiras cenas, no Marrocos, junto ao marido, enquanto estavam em um restaurante, podemos detectar, por pequenos detalhes, que ela é extremamente preocupada com limpeza, pois desinfeta suas mãos e recusa-se a utilizar o gelo oferecido para beberem o refrigerante, argumentando que não sabia de onde vinha aquela água. O seu desconforto com o ambiente, com as pessoas, fica totalmente nítido. Nos dá uma impressão de arrogância. Seu marido, interpretado pelo ator Brad Pitt, apenas pede para que ela relaxasse, que a intenção da viagem era essa, pois eles haviam perdido um filho, ainda bebê. E é justamente ela a atingida pelo tiro inesperado equanto o ônibus de turismo está na estrada, no meio do deserto. Hospitais ou clinicas de socorro estão a quilômetros de distância. Ela é levada, então, para a cidade do guia turístico que os acompanha. Lá, é submetida aos cuidados de um veterinário que dá pontos no local onde foi atingida, com uma agulha desinfetada apenas com um isqueiro e uma linha que não sabemos de onde ele tirou. Se os pontos não fossem dados, ela sangraria até morrer, pois a ajuda da embaixada poderia demorar. Além disso, uma senhora típica do local é quem ameniza as suas dores, ao oferecer ervas para ela fumar. Sem opção, para sobreviver, Susan se vê diante de todos os seus preconceitos e amarras e precisa engolí-los de uma forma brusca. Alguns seres humanos só se dão conta que não têm controle sobre quase nada, que não são melhores que ninguém, quando colocados em situações extremas como essa.

Há muitas outras situações no filme que retratam claramente nossas imperfeições e quanto devemos apurar nossa consciência com valores que parecem estar esquecidos neste mundo globalizado. O filme tem o mérito de colocar a raça humana em plano de igualdade. Mesmo falando diferentes línguas, em diferentes culturas, crendo em deuses distintos, somos todos iguais. Sentimos as mesmas dores quando atingidos, quando perdemos, quando sangramos. Somos dominados por necessidades físicas idênticas, tanto o pobre quanto o rico, aqui ou na China. No caso da Susan, a turista no Marrocos, o dinheiro, naquele momento não tinha poder algum, se ela não se submetesse àquelas pessoas, às quais, a momentos antes, ela havia desprezado, ela morreria.

E todos precisam de afeto em qualquer lugar do mundo e, acima de tudo, somos tão iguais que amamos da mesma forma, filhos, pais, homens, mulheres, amigos, conhecidos e afins, graus de parentesco iguais, do norte ao sul do leste ao oeste deste planeta todo interligado. Uma ação aqui no hemisfério sul, pode ter consequência, boa ou ruim, lá no hemisfério norte e nem tomamos conhecimento. Portanto, antes de agir, pensemos, prudentemente.




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