Para minha grande surpresa, descobri, pesquisando na internet, que a palavra Avatar vem do sãnscrito Avatãra, que significa “Aquele que descende de Deus”, ou “descida do céu para a terra de seres supraterrestres”, ou simplesmente “Encarnação”, ou seja, espírito que ocupa um corpo de carne. Algo tão próximo com a filosofia espírita de reencarnação não pode ser mera coincidência. E talvez não seja também mera coincidência o filme Avatar de James Cameron possuir muitos elementos desta belíssima filosofia.
O filme conta a história de Jake Sully, um ex fuzileiro da marinha, paraplégico, que é enviado ao planeta Pandora. Um planeta parecido com a Terra, mas com fauna e flora bem particulares. Na Terra, os humanos já estão no ano de 2154. Jake vai para Pandora com a missão de ajudar os humanos a conquistar a população nativa, os Na´vi, pois eles estão impedindo a exploração de um metal valiosíssimo, chamado Unobtanium. Jake, então, através de uma super tecnologia, ocupa um corpo de um Na´vi criado em laboratório o qual chama de Avatar. Ele, no seu avatar, se infiltra na sociedade nativa e aprende muita coisa, principalmente o modo como pensam, sua cultura, o relacionamento deles com a natureza. Tudo isso o transforma tanto, que acaba ficando contra os planos dos humanos.
E nessa transformação do personagem de Jake é que podemos identificar o quanto essa população nativa é evoluída. Eles usam o verbo sentir com mais afinco do que o verbo ter. A única coisa que eles têm, é plena consciência de que tudo que os rodeia é emprestado por Eywa (uma entidade que tudo equilibra), ou seja, o corpo deles, a alimentação, a natureza, qualquer item que sirva para a sobrevivência e que precisam devolver a Eywa o que utilizaram, inclusive a energia, no momento em que morrem.
Como nós humanos, eles se alimentam da carne de animais, mas só matam na quantidade que realmente necessitam. E a caça é como um ritual. Depois que acertam o animal, eles o tocam e fazem uma prece, da seguinte forma: “eu te vejo, irmão, e te agradeço. Que seu espírito se junte a Eywa. Seu corpo fica aqui para se tornar parte do Povo.” Esta última frase quer dizer que o corpo servirá como alimentação, ou seja, fará parte do Povo, mas que seu espírito pode se juntar a Eywa. E neste caso, quando ele diz que o vê, ele expressa o que está sentindo. Eles utilizam este verbo para designar o sentir. E esse tipo de morte é vista como uma 'morte limpa'.
Uma das passagens mais marcantes se dá no início do filme, para entendermos o quão diferente é a filosofia dos Na´vi. Jake, já incorporado ao seu avatar, se perde na floresta e encontra-se com uma nativa, a Neytiri. É noite e ele está em perigo. Há vários animais tentando atacá-lo. Ela pensa primeiro em matá-lo, mas uma semente da árvore sagrada, considerada como espírito puro, pousa na ponta de sua flexa. Ela vê aquilo como um sinal e resolve salvá-lo dos animais, os matando com flechadas. Rapidamente, ele tenta agradecê-la, mas ela o ignora. Ele insiste. Furiosa, diz a ele que esse tipo de coisa não tem agradecimento, pois aquela situação tinha sido culpa dele, pois tudo aquilo, na verdade, é muito triste. Aqueles animais não deveriam ter morrido, mas por culpa dele foram mortos. Ou seja, uma visão totalmente contrária a nossa, pois achamos que os animais que nos atacam devem ser dominados ou mortos. Na verdade, se eles nos atacam é porque os estamos desrespeitando. E durante essa cena, a nativa muitas vezes repete que “ele é como um bebê, só faz barulho, mas não sabe o que fazer”. Ela pode estar com toda a razão, pois perante a evolução ideal, ainda estamos engatinhando.
Outra ligação entre os Na´vi e os animais é a mental. Para meio de transporte eles utilizam seres relativamente parecidos com cavalos e seres voadores. Antes de utilizarem os animais, eles precisam fazer um tipo de conexão. A conexão se dá pela ponta dos cabelos dos Na´vi e a calda do animal. E assim, ao domá-lo e sentí-lo, os movimentos são coordenados mentalmente. Acredito que não seja exagero dizer que a idéia de conexão, palavra tão largamente usada na era digital, está ligada a idéia das conexões às quais estamos acostumados: telefone, internet, cabos USB, mas de forma ainda muito primitiva, pois não dominamos nada com a mente, ainda. Estamos chegando perto disso. Só que o domínio terreno se dá em aparelhos eletrônicos, em objetos criados para nos servir. Já os Na´vi dominam e sentem os animais.
Nesta história, o grande conflito está na vontade ambiciosa do homem de enriquecer a custa da exploração de um minério valiosíssimo. Este mineral tem sua maior concentração em uma grande e belíssima árvore chamada de “casa da árvore”, que serve de moradia aos Na´vi. O homem, tomado por esse sentimento destruidor, com espírito ainda iludido pela riqueza, destrói essa casa. A árvore é derrubada impiedosamente. As cenas da destruição, das mortes, do pavor provocado na população nos remete às cenas da destruição do World Trade Center. Dizem que a intenção de James Cameron, o diretor, era exatamente essa. Acredito que o intuito maior dele é expor o quanto nós ainda somos primitivos, bárbaros e bem distantes do ideal de evolução. No meu ponto de vista, há um certo exagero nas cenas de brutalidade, que chegam a ser cansativas.
Com este conflito, com esta destruição, trava-se uma guerra entre o povo Na´vi e os seres humanos, chamados de “o povo do céu”. Apenas 4 seres humanos estão do lado dos nativos. Entre eles, a Dra. Grace, pesquisadora cientista apaixonada por Pandora. Na fuga dela da central de onde “o povo do céu” controlava tudo, é atingida por um tiro. Para salvá-la, Jake a leva ao povo Na´vi, para que a ajudassem e surge então uma das cenas mais bonitas de todo o filme. O corpo humano de Grace é entregue à Árvore das Almas, local sagrado, onde todos os seres fazem conexão com a Eywa. Há muitos deles sentados em volta da árvore. E através de um ritual, vê se todos conectados a ela por fluídos magnéticos. Esses fluídos vão penetrando no corpo de Grace e a tentativa maior é que seu espírito deixe o corpo humano ferido e apodere-se de sua avatar, saudável. Mas, por estar muito fraca, tal transporte não foi possível. E ela se junta a Eywa, ou seja, ela morre. Um túnel de luz representa a sua passagem. Assim como os túneis de luz relatados por pessoas que tiveram experiência de quase morte aqui na terra.
Portanto, podemos dizer que há muita espiritualidade em Avatar. Os fluídos magnéticos, o equilíbrio da vida em Pandora determinada pela energia de Eywa, a Árvore das Almas, local sagrado onde a energia dos antepassados é possível de ser sentida, o respeito absoluto à natureza, a plena consciência de que não são proprietários de nada e que tudo é emprestado para que possam seguir na existência e de que tudo precisa ser devolvido, inclusive a energia. Avatar, portanto, não é apenas um filme de puro entretenimento, mas um filme para ser visto, ou melhor, sentido, absorvido, mesmo que seja pura ficção.
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