A autoestima, a estima por si mesmo, está totalmente ligada à autoconfiança. Elas podem ser positivas ou negativas. São estados psicológicos que Albert Frederick Arthur George (14/12/1895 - 06/02/1952), depois nomeado George VI, rei do Reino Unido entre 1936 e 1952, tinha por si mesmo, mas totalmente negativos. E é desse tema e de mais alguns outros que trata o filme ganhador do Oscar deste ano, O Discurso do Rei, do diretor Tom Hooper.
O filme inicia-se com Albert (Colin Firth), chamado pela família real de “Bertie”, ainda com o título de Duque de York. Nas primeiras cenas, percebemos em seu semblante um transtorno, pois irá fazer um pronunciamento a muitas pessoas através do rádio. Só que há um probleminha, Albert é gago. As palavras simplesmente não saem e o constrangimento é gigantesco. Nas cenas seguintes, nos é informado que ele já havia tentado tudo quanto é tratamento, mas nada resolvido. Até que sua esposa, a Lady Elizabeth Bowes-Lyon (Helena Bonham Carter), mãe da atual Rainha Elizabeth II, descobre um novo terapeuta, Lionel Logue (Geoffrey Rush).
E é nesse momento que o filme realmente começa, pois mostra a transformação do personagem ao relacionar-se com o terapeuta. Os primeiros momentos são de intensa resistência. O terapeuta sabe muito bem o que se passa com aquele homem, mas diante de tanta resistência, é preciso muita paciência. O nobre inglês recusa-se a falar de assuntos pessoais, já que acredita que seu problema na fala se dá por alguma questão física. Desta forma, não entende a abordagem de Logue, que é tratar da origem psicológica de sua deficiência, sintoma claro de algum trauma ou construção negativa de sua autoestima.
A relação vai se desenvolvendo conforme a necessidade de Albert em melhorar a sua forma de falar, ou seja, diminuir a gagueira. Ele é um homem público e precisa, em algumas situações, simplesmente discursar. Seu pai, George V, exige isso dele. Voz, coragem, determinação, segurança. Características bem distantes da sua personalidade. Até que o pai morre, o irmão mais velho por questões morais, renuncia ao trono e Albert assume o reinado, transformando-se em George VI.
Uma das cenas mais importantes do filme acontece quando Albert, logo após a morte de seu pai, bate à porta do terapeuta e desata a contar particularidades de sua infância. Uma delas é o fato dele gostar muito de construir miniaturas de modelos de aviões, mas era impedido de construí-las, pois o pai colecionava selos e ele e seus irmãos eram obrigados a colecionar também. Em sua infância de filho de rei, não havia a mínima liberdade para fazer o que sentia prazer. Outra questão foi o fato de ter nascido canhoto, mas era punido por usar a mão esquerda e obrigado a escrever com a mão direita. Seus joelhos eram tortos e tiveram que ser corrigidos, além de declarar o pouco contato com os pais e o intenso contato com as babás, ou seja, uma criação particular que só poderia resultar em gagueira, em medo de ser ele mesmo, de demonstrar a sua essência, o seu lado esquerdo, a sua voz.
Todos esses temas e mais alguns outros, como a construção de uma amizade, são levemente abordados neste filme ganhador de algumas estatuetas. Além disso, de forma sintética, ele questiona a importância da experiência e dos títulos. Lionel Logue não possui nenhum título acadêmico, apenas experiência em curar pessoas com problemas da fala. Até certo ponto, Albert não se dá conta desse fato, mas seus conselhereiros pesquisam a vida do terapeuta e descobrem o fato. Lionel chega a ser questionado pelo próprio paciente e ali mostra o quão desnecessário podem ser os títulos, as formalidades, as nomeações e além disso deixa bem claro que nunca solicitou ser tratado como Doutor, mas sim, pelo nome, pois acredita na igualdade entre os seres, tão esquecida pela grande maioria dos seres humanos. Além disso, deixa evidente que encara a vida como um teatro, pois todos desenvolvem papéis e seguem todas as marcações. As pessoas dificilmente são elas mesmas.
Desta forma, podemos dizer que O Discurso do Rei é uma história rica em valores. Uma história retirada da realidade de uma família nobre, muito bem conhecida de todos. Vale a pena assistí-lo para quem ainda não viu e vale a pena revê-lo quem já assistiu, só para absorver detalhes que passaram desapercebidos. E se possível, absorver os valores que andam tão esquecidos diante de tantas máscaras, papéis e teatros que andamos encenando pela vida.



