20 de março de 2011

O lado extremamente humano de um rei

A autoestima, a estima por si mesmo, está totalmente ligada à autoconfiança. Elas podem ser positivas ou negativas. São estados psicológicos que Albert Frederick Arthur George (14/12/1895 - 06/02/1952), depois nomeado George VI, rei do Reino Unido entre 1936 e 1952, tinha por si mesmo, mas totalmente negativos. E é desse tema e de mais alguns outros que trata o filme ganhador do Oscar deste ano, O Discurso do Rei, do diretor Tom Hooper.

O filme inicia-se com Albert (Colin Firth), chamado pela família real de “Bertie”, ainda com o título de Duque de York. Nas primeiras cenas, percebemos em seu semblante um transtorno, pois irá fazer um pronunciamento a muitas pessoas através do rádio. Só que há um probleminha, Albert é gago. As palavras simplesmente não saem e o constrangimento é gigantesco. Nas cenas seguintes, nos é informado que ele já havia tentado tudo quanto é tratamento, mas nada resolvido. Até que sua esposa, a Lady Elizabeth Bowes-Lyon (Helena Bonham Carter), mãe da atual Rainha Elizabeth II, descobre um novo terapeuta, Lionel Logue (Geoffrey Rush).

E é nesse momento que o filme realmente começa, pois mostra a transformação do personagem ao relacionar-se com o terapeuta. Os primeiros momentos são de intensa resistência. O terapeuta sabe muito bem o que se passa com aquele homem, mas diante de tanta resistência, é preciso muita paciência. O nobre inglês recusa-se a falar de assuntos pessoais, já que acredita que seu problema na fala se dá por alguma questão física. Desta forma, não entende a abordagem de Logue, que é tratar da origem psicológica de sua deficiência, sintoma claro de algum trauma ou construção negativa de sua autoestima.

A relação vai se desenvolvendo conforme a necessidade de Albert em melhorar a sua forma de falar, ou seja, diminuir a gagueira. Ele é um homem público e precisa, em algumas situações, simplesmente discursar. Seu pai, George V, exige isso dele. Voz, coragem, determinação, segurança. Características bem distantes da sua personalidade. Até que o pai morre, o irmão mais velho por questões morais, renuncia ao trono e Albert assume o reinado, transformando-se em George VI.

Uma das cenas mais importantes do filme acontece quando Albert, logo após a morte de seu pai, bate à porta do terapeuta e desata a contar particularidades de sua infância. Uma delas é o fato dele gostar muito de construir miniaturas de modelos de aviões, mas era impedido de construí-las, pois o pai colecionava selos e ele e seus irmãos eram obrigados a colecionar também. Em sua infância de filho de rei, não havia a mínima liberdade para fazer o que sentia prazer. Outra questão foi o fato de ter nascido canhoto, mas era punido por usar a mão esquerda e obrigado a escrever com a mão direita. Seus joelhos eram tortos e tiveram que ser corrigidos, além de declarar o pouco contato com os pais e o intenso contato com as babás, ou seja, uma criação particular que só poderia resultar em gagueira, em medo de ser ele mesmo, de demonstrar a sua essência, o seu lado esquerdo, a sua voz.


Todos esses temas e mais alguns outros, como a construção de uma amizade, são levemente abordados neste filme ganhador de algumas estatuetas. Além disso, de forma sintética, ele questiona a importância da experiência e dos títulos. Lionel Logue não possui nenhum título acadêmico, apenas experiência em curar pessoas com problemas da fala. Até certo ponto, Albert não se dá conta desse fato, mas seus conselhereiros pesquisam a vida do terapeuta e descobrem o fato. Lionel chega a ser questionado pelo próprio paciente e ali mostra o quão desnecessário podem ser os títulos, as formalidades, as nomeações e além disso deixa bem claro que nunca solicitou ser tratado como Doutor, mas sim, pelo nome, pois acredita na igualdade entre os seres, tão esquecida pela grande maioria dos seres humanos. Além disso, deixa evidente que encara a vida como um teatro, pois todos desenvolvem papéis e seguem todas as marcações. As pessoas dificilmente são elas mesmas.

Desta forma, podemos dizer que O Discurso do Rei é uma história rica em valores. Uma história retirada da realidade de uma família nobre, muito bem conhecida de todos. Vale a pena assistí-lo para quem ainda não viu e vale a pena revê-lo quem já assistiu, só para absorver detalhes que passaram desapercebidos. E se possível, absorver os valores que andam tão esquecidos diante de tantas máscaras, papéis e teatros que andamos encenando pela vida.



O pé esquerdo do escritor, pintor e poeta Christy Brown

Meu pé esquerdo é a história de um homem real, o irlandês Christy Brown (Daniel Day-Lewis), escritor, pintor e poeta que nasceu com paralisia cerebral. O filme é baseado no livro escrito por ele, exatamente com o pé esquerdo, seu único membro que possui movimento.

Jim Sheridan, diretor irlandês, conta a história deste homem que enfrentou diversos obstáculos para ser reconhecido pela família e pela sociedade. Em meio a treze crianças de uma família humilde e católica da Irlanda, ele lutava para demonstrar que sua mente não era paralisada como seu corpo. Seu pai acreditava que o filho, além de não ter todos os movimentos, também era um débil mental. Mas ele consegue conquistar o respeito do pai, numa cena marcante em que ele escreve, com um esforço tremendo, com um giz branco entre os dedos do pé, a palavra “mãe” no assoalho de sua casa. E é com este mesmo pé que ainda criança começa a pintar e no final da adolescência é reconhecido como um grande artista plástico. Para que ele se tornasse tudo isso, esteve ao lado dele, o tempo todo, uma figura de extrema importância, sua mãe.

A fortaleza dessa mãe fica muito nítida pela lente desse diretor irlandês. Se olharmos mais atentamente para este filme, podemos não enxergar apenas a vida deste paralítico, mas a história dessa mãe e sua significação na vida de Christy. Uma mulher que gerou 22 filhos, dos quais sobreviveram 13. Fica nas entrelinhas o fato de que por ser uma família católica, ela não utilizava nenhum método contraceptivo. Além disso, na época o patriarcalismo era um valor muito forte. A quantidade de filhos gerados por um homem demonstrava o quão viril ele poderia ser. Com todas essas questões, essa mãe demonstra uma força gigantesca ao cuidar dessa casa e desse filho. É bom ressaltar a cena que ela, grávida, sobe as escadas com Christy nos ombros, já com uns sete anos na época. Exausta, larga o garoto em uma cama e desce as escadas correndo para pedir ajuda, pois começa a passar mal. Essa cena é só a demonstração da força física dessa mãe. Ao longo da história, a sua força moral também vai ganhando espaço e importância. É ela quem incentiva o filho a colocar a marca dele neste mundo, é ela que entende o que ele tenta dizer às pessoas, é ela quem apresenta a ele suas crenças religiosas, é ela quem o estimula a pintar, é ela que percebe quando ele se apaixona por uma médica e morre de medo de ver seu filho com o coração partido. Além de tudo isso, é ela que faz com que ele saia de uma crise depressiva, pois chega a dizer “Christy, eu acho que você é o meu coração, não suporto te ver assim” e de uma forma inesperada, começa a construir no pequeno quintal aos fundos da casa, um quarto para que o filho pudesse ter mais privacidade e espaço para voltar a pintar.

Outra análise que podemos fazer é dimensionar a contribuição deste homem para a visão de mundo em relação a pessoas com paralisias. Ele pôde mostrar que é tão artista quanto artistas que pintam com as mãos. Que é tão escritor quanto àqueles que possuem todas as habilidades motoras. Que deve ser respeitado e tratado como qualquer outro ser humano.

Além disso, fica claro no filme que diante de tal circunstância sua sensibilidade ficou muito mais aflorada. Primeiramente o senso de justiça dele é claro. Desde pequeno quando renega todas as brutalidades do pai. A sensibilidade aguda também faz com que transporte para os quadros seus sentimentos, as particularidades das feições de sua família e das pessoas a quem ele admira, como a médica que cuida dele na adolescência. E é através da arte de escrever que conta sua história de forma sensível. Já nas cenas finais, um trecho de sua obra é lida pelo anfitrião de uma festa beneficente.“Eu nasci no Hospital Rotunda, no dia 5 de Julho de 1932. Foram 22 filhos, ao todo, dos quais treze sobreviveram. Estaria mentindo se dissesse que não estou mais só. Consegui me fazer compreender por pessoas do mundo todo sendo ou não aleijado. Como todos, tenho aguda consciência do meu isolamento ainda que em meio aos outros. Com freqüência abro mão da esperança de realmente me comunicar com eles.(...) Escritor ou artista deve viver se quiser criar o que quer que seja. É como uma nuvem negra que surge inesperadamente e me separa dos outros, uma espécie de mudez surda. Reclino-me em minha cadeira enquanto meu velho pé esquerdo marca o tempo de um novo ritmo. Agora eu poderia relaxar e me divertir completamente. Eu estava em paz, feliz.”


Talvez seja essa paz e essa felicidade que tanto buscamos e não sabemos muito bem onde encontrá-la. A simples paz de ser reconhecido e ouvido. Mas, na minha opinião, o melhor da felicidade está em ser compreendido, em poder contribuir de alguma forma, mesmo que numa pequena fração, com a evolução, com o auto-conhecimento de alguém. Provavelmente, Christy Brown, em sua época, fez com que muitos compreendessem sua condição e adquirissem respeito. A sua vida foi uma aula para, primeiramente, sua família e depois a sua sociedade. E para verificarmos a dimensão da importância de sua existência, estamos hoje, há 30 anos de sua morte, falando dele.

Christy Brown faleceu em 1981, aos 49 anos, por asfixia. Este filme foi feito 8 anos depois de sua morte, em 1989, e ganhou diversos prêmios, sendo um deles o Oscar de melhor ator para Daniel Day Lewis que o interpreta magistralmente. É mais uma lição de vida, de auto estima, de coragem e resignação. Como sabemos, cada um está no lugar que deve estar.

5 de março de 2011

Um pouco de evolução em Avatar


Para minha grande surpresa, descobri, pesquisando na internet, que a palavra Avatar vem do sãnscrito Avatãra, que significa “Aquele que descende de Deus”, ou “descida do céu para a terra de seres supraterrestres”, ou simplesmente “Encarnação”, ou seja, espírito que ocupa um corpo de carne. Algo tão próximo com a filosofia espírita de reencarnação não pode ser mera coincidência. E talvez não seja também mera coincidência o filme Avatar de James Cameron possuir muitos elementos desta belíssima filosofia.


O filme conta a história de Jake Sully, um ex fuzileiro da marinha, paraplégico, que é enviado ao planeta Pandora. Um planeta parecido com a Terra, mas com fauna e flora bem particulares. Na Terra, os humanos já estão no ano de 2154. Jake vai para Pandora com a missão de ajudar os humanos a conquistar a população nativa, os Na´vi, pois eles estão impedindo a exploração de um metal valiosíssimo, chamado Unobtanium. Jake, então, através de uma super tecnologia, ocupa um corpo de um Na´vi criado em laboratório o qual chama de Avatar. Ele, no seu avatar, se infiltra na sociedade nativa e aprende muita coisa, principalmente o modo como pensam, sua cultura, o relacionamento deles com a natureza. Tudo isso o transforma tanto, que acaba ficando contra os planos dos humanos.

E nessa transformação do personagem de Jake é que podemos identificar o quanto essa população nativa é evoluída. Eles usam o verbo sentir com mais afinco do que o verbo ter. A única coisa que eles têm, é plena consciência de que tudo que os rodeia é emprestado por Eywa (uma entidade que tudo equilibra), ou seja, o corpo deles, a alimentação, a natureza, qualquer item que sirva para a sobrevivência e que precisam devolver a Eywa o que utilizaram, inclusive a energia, no momento em que morrem.

Como nós humanos, eles se alimentam da carne de animais, mas só matam na quantidade que realmente necessitam. E a caça é como um ritual. Depois que acertam o animal, eles o tocam e fazem uma prece, da seguinte forma: “eu te vejo, irmão, e te agradeço. Que seu espírito se junte a Eywa. Seu corpo fica aqui para se tornar parte do Povo.” Esta última frase quer dizer que o corpo servirá como alimentação, ou seja, fará parte do Povo, mas que seu espírito pode se juntar a Eywa. E neste caso, quando ele diz que o vê, ele expressa o que está sentindo. Eles utilizam este verbo para designar o sentir. E esse tipo de morte é vista como uma 'morte limpa'.

Uma das passagens mais marcantes se dá no início do filme, para entendermos o quão diferente é a filosofia dos Na´vi. Jake, já incorporado ao seu avatar, se perde na floresta e encontra-se com uma nativa, a Neytiri. É noite e ele está em perigo. Há vários animais tentando atacá-lo. Ela pensa primeiro em matá-lo, mas uma semente da árvore sagrada, considerada como espírito puro, pousa na ponta de sua flexa. Ela vê aquilo como um sinal e resolve salvá-lo dos animais, os matando com flechadas. Rapidamente, ele tenta agradecê-la, mas ela o ignora. Ele insiste. Furiosa, diz a ele que esse tipo de coisa não tem agradecimento, pois aquela situação tinha sido culpa dele, pois tudo aquilo, na verdade, é muito triste. Aqueles animais não deveriam ter morrido, mas por culpa dele foram mortos. Ou seja, uma visão totalmente contrária a nossa, pois achamos que os animais que nos atacam devem ser dominados ou mortos. Na verdade, se eles nos atacam é porque os estamos desrespeitando. E durante essa cena, a nativa muitas vezes repete que “ele é como um bebê, só faz barulho, mas não sabe o que fazer”. Ela pode estar com toda a razão, pois perante a evolução ideal, ainda estamos engatinhando.

Outra ligação entre os Na´vi e os animais é a mental. Para meio de transporte eles utilizam seres relativamente parecidos com cavalos e seres voadores. Antes de utilizarem os animais, eles precisam fazer um tipo de conexão. A conexão se dá pela ponta dos cabelos dos Na´vi e a calda do animal. E assim, ao domá-lo e sentí-lo, os movimentos são coordenados mentalmente. Acredito que não seja exagero dizer que a idéia de conexão, palavra tão largamente usada na era digital, está ligada a idéia das conexões às quais estamos acostumados: telefone, internet, cabos USB, mas de forma ainda muito primitiva, pois  não dominamos nada com a mente, ainda. Estamos chegando perto disso. Só que o domínio terreno se dá em aparelhos eletrônicos, em objetos criados para nos servir. Já os Na´vi dominam e sentem os animais.

Nesta história, o grande conflito está na vontade ambiciosa do homem de enriquecer a custa da exploração de um minério valiosíssimo. Este mineral tem sua maior concentração em uma grande e belíssima árvore chamada de “casa da árvore”, que serve de moradia aos Na´vi. O homem, tomado por esse sentimento destruidor, com espírito ainda iludido pela riqueza, destrói essa casa. A árvore é derrubada impiedosamente. As cenas da destruição, das mortes, do pavor provocado na população nos remete às cenas da destruição do World Trade Center. Dizem que a intenção de James Cameron, o diretor, era exatamente essa. Acredito que o intuito maior dele é expor o quanto nós ainda somos primitivos, bárbaros e bem distantes do ideal de evolução. No meu ponto de vista, há um certo exagero nas cenas de brutalidade, que chegam a ser cansativas. 

Com este conflito, com esta destruição, trava-se uma guerra entre o povo Na´vi e os seres humanos, chamados de “o povo do céu”. Apenas 4 seres humanos estão do lado dos nativos. Entre eles, a Dra. Grace, pesquisadora cientista apaixonada por Pandora. Na fuga dela da central de onde “o povo do céu” controlava tudo, é atingida por um tiro. Para salvá-la, Jake a leva ao povo Na´vi, para que a ajudassem e surge então uma das cenas mais bonitas de todo o filme. O corpo humano de Grace é entregue à Árvore das Almas, local sagrado, onde todos os seres fazem conexão com a Eywa. Há muitos deles sentados em volta da árvore. E através de um ritual, vê se todos conectados a ela por fluídos magnéticos. Esses fluídos vão penetrando no corpo de Grace e a tentativa maior é que seu espírito deixe o corpo humano ferido e apodere-se de sua avatar, saudável. Mas, por estar muito fraca, tal transporte não foi possível. E ela se junta a Eywa, ou seja, ela morre. Um túnel de luz representa a sua passagem. Assim como os túneis de luz relatados por pessoas que tiveram experiência de quase morte aqui na terra.

Portanto, podemos dizer que há muita espiritualidade em Avatar. Os fluídos magnéticos, o equilíbrio da vida em Pandora determinada pela energia de Eywa, a Árvore das Almas, local sagrado onde a energia dos antepassados é possível de ser sentida, o respeito absoluto à natureza, a plena consciência de que não são proprietários de nada e que tudo é emprestado para que possam seguir na existência e de que tudo precisa ser devolvido, inclusive a energia. Avatar, portanto, não é apenas um filme de puro entretenimento, mas um filme para ser visto, ou melhor, sentido, absorvido, mesmo que seja pura ficção.