20 de março de 2011

O pé esquerdo do escritor, pintor e poeta Christy Brown

Meu pé esquerdo é a história de um homem real, o irlandês Christy Brown (Daniel Day-Lewis), escritor, pintor e poeta que nasceu com paralisia cerebral. O filme é baseado no livro escrito por ele, exatamente com o pé esquerdo, seu único membro que possui movimento.

Jim Sheridan, diretor irlandês, conta a história deste homem que enfrentou diversos obstáculos para ser reconhecido pela família e pela sociedade. Em meio a treze crianças de uma família humilde e católica da Irlanda, ele lutava para demonstrar que sua mente não era paralisada como seu corpo. Seu pai acreditava que o filho, além de não ter todos os movimentos, também era um débil mental. Mas ele consegue conquistar o respeito do pai, numa cena marcante em que ele escreve, com um esforço tremendo, com um giz branco entre os dedos do pé, a palavra “mãe” no assoalho de sua casa. E é com este mesmo pé que ainda criança começa a pintar e no final da adolescência é reconhecido como um grande artista plástico. Para que ele se tornasse tudo isso, esteve ao lado dele, o tempo todo, uma figura de extrema importância, sua mãe.

A fortaleza dessa mãe fica muito nítida pela lente desse diretor irlandês. Se olharmos mais atentamente para este filme, podemos não enxergar apenas a vida deste paralítico, mas a história dessa mãe e sua significação na vida de Christy. Uma mulher que gerou 22 filhos, dos quais sobreviveram 13. Fica nas entrelinhas o fato de que por ser uma família católica, ela não utilizava nenhum método contraceptivo. Além disso, na época o patriarcalismo era um valor muito forte. A quantidade de filhos gerados por um homem demonstrava o quão viril ele poderia ser. Com todas essas questões, essa mãe demonstra uma força gigantesca ao cuidar dessa casa e desse filho. É bom ressaltar a cena que ela, grávida, sobe as escadas com Christy nos ombros, já com uns sete anos na época. Exausta, larga o garoto em uma cama e desce as escadas correndo para pedir ajuda, pois começa a passar mal. Essa cena é só a demonstração da força física dessa mãe. Ao longo da história, a sua força moral também vai ganhando espaço e importância. É ela quem incentiva o filho a colocar a marca dele neste mundo, é ela que entende o que ele tenta dizer às pessoas, é ela quem apresenta a ele suas crenças religiosas, é ela quem o estimula a pintar, é ela que percebe quando ele se apaixona por uma médica e morre de medo de ver seu filho com o coração partido. Além de tudo isso, é ela que faz com que ele saia de uma crise depressiva, pois chega a dizer “Christy, eu acho que você é o meu coração, não suporto te ver assim” e de uma forma inesperada, começa a construir no pequeno quintal aos fundos da casa, um quarto para que o filho pudesse ter mais privacidade e espaço para voltar a pintar.

Outra análise que podemos fazer é dimensionar a contribuição deste homem para a visão de mundo em relação a pessoas com paralisias. Ele pôde mostrar que é tão artista quanto artistas que pintam com as mãos. Que é tão escritor quanto àqueles que possuem todas as habilidades motoras. Que deve ser respeitado e tratado como qualquer outro ser humano.

Além disso, fica claro no filme que diante de tal circunstância sua sensibilidade ficou muito mais aflorada. Primeiramente o senso de justiça dele é claro. Desde pequeno quando renega todas as brutalidades do pai. A sensibilidade aguda também faz com que transporte para os quadros seus sentimentos, as particularidades das feições de sua família e das pessoas a quem ele admira, como a médica que cuida dele na adolescência. E é através da arte de escrever que conta sua história de forma sensível. Já nas cenas finais, um trecho de sua obra é lida pelo anfitrião de uma festa beneficente.“Eu nasci no Hospital Rotunda, no dia 5 de Julho de 1932. Foram 22 filhos, ao todo, dos quais treze sobreviveram. Estaria mentindo se dissesse que não estou mais só. Consegui me fazer compreender por pessoas do mundo todo sendo ou não aleijado. Como todos, tenho aguda consciência do meu isolamento ainda que em meio aos outros. Com freqüência abro mão da esperança de realmente me comunicar com eles.(...) Escritor ou artista deve viver se quiser criar o que quer que seja. É como uma nuvem negra que surge inesperadamente e me separa dos outros, uma espécie de mudez surda. Reclino-me em minha cadeira enquanto meu velho pé esquerdo marca o tempo de um novo ritmo. Agora eu poderia relaxar e me divertir completamente. Eu estava em paz, feliz.”


Talvez seja essa paz e essa felicidade que tanto buscamos e não sabemos muito bem onde encontrá-la. A simples paz de ser reconhecido e ouvido. Mas, na minha opinião, o melhor da felicidade está em ser compreendido, em poder contribuir de alguma forma, mesmo que numa pequena fração, com a evolução, com o auto-conhecimento de alguém. Provavelmente, Christy Brown, em sua época, fez com que muitos compreendessem sua condição e adquirissem respeito. A sua vida foi uma aula para, primeiramente, sua família e depois a sua sociedade. E para verificarmos a dimensão da importância de sua existência, estamos hoje, há 30 anos de sua morte, falando dele.

Christy Brown faleceu em 1981, aos 49 anos, por asfixia. Este filme foi feito 8 anos depois de sua morte, em 1989, e ganhou diversos prêmios, sendo um deles o Oscar de melhor ator para Daniel Day Lewis que o interpreta magistralmente. É mais uma lição de vida, de auto estima, de coragem e resignação. Como sabemos, cada um está no lugar que deve estar.

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