Diretor: Krzysztof Kieslowski
Países: França, Polônia e Suíça - 100 min.
Hoje foi a segunda vez que vi esse filme e posso considerar como a primeira. A única cena que havia ficado em minha mente era a da personagem Julie (Juliette Binoche), quando ela se autoflagela ao raspar sua mão direita em um muro áspero. Essa ação da protagonista demonstra sua tentativa de sentir uma dor maior do que aquela que ela estava sentindo, a dor da perda de sua filha e de seu marido em um acidente de carro. Uma cena sem diálogo, sem palavras, totalmente expressiva, intensa.
E essa intensidade está em cada cena, em cada fotografia, pois o diretor polonês Krzysztof Kieslowski trabalha com a emoção de cada objeto, de cada fala e suas influências na trajetória, nas ações e emoções da personagem. Assistir a um filme como esse depois de muitos anos é uma experiência interessante, pois o olhar está mais apurado, na mente há mais repertório. E com isso eu pude ver a imensidão de simbolismos, como na sequência em que Julie está em um café e pega um pequeno cubo de açúcar e o aproxima do líquido. O café é absorvido pelo cubo e após ficar totalmente úmido, é jogado na xícara que transborda. Esta cena representa o que que muitas vezes desejamos ou imaginamos fazer quando estamos absorvidos de sentimentos difíceis que nos machucam: afundar totalmente nesses sentimentos e sumir.
Este filme é o primeiro da Trilogia das Cores, e última sequência de filmes do diretor polonês que faleceu em 1996. As cores da bandeira francesa, azul, branca e vermelha, estão associadas aos ideais da Revolução Francesa de 1789, liberdade, igualdade e fraternidade. Por meio de histórias relativamente comuns, o diretor questiona esses ideais. Em A Liberdade é Azul, por mais que a personagem Julie tente se ver livre de memórias e passado, por mais que tente não criar vínculos, ela não consegue. Acontecimentos, objetos ou simples perguntas são estopins para que ela volte ao passado. Alguns acontecimentos a fazem perceber que depende da ajuda ou precisa ajudar alguém. O ideal de liberdade é totalmente minado por simplesmente viver. Portanto, talvez essa liberdade que tanto foi defendida, seja apenas uma ilusão pela qual se tenta viver.
Um filme difícil, intenso, de uma sensibilidade marcante e que sim, deve ser visto antes de morrer por aqueles que realmente tentam enxergar o que há de mais complexo em viver.

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