4 de dezembro de 2011

"O Palhaço" é artificial

O segundo longa de Selton Mello não é tudo o que as pessoas têm falado, não vi poesia, não vi um drama verdadeiro, não vi grandes interpretações, apenas imagens bonitas, bem enquadradas e coloridas, que acredito, tenham cegado a maioria do público e dos críticos. 

Podemos dizer que a fotografia é incrível, a direção de arte está de parabéns, a trilha sonora é bacaninha, agora o roteiro deixa muito a desejar. É sofrível perceber que a crise existencial de Benjamin (Selton Mello) tenha se desencadeado quando ele sai do circo, após uma apresentação e é abordado seguidamente por toda a trupe lhe cobrando coisas, lhe dando sugestões. Em um único plano sequência, que parecia uma propaganda da Nextel, toda a trupe resolve reclamar e pressionar o filho do dono do circo. A obsessão pela compra de um ventilador, o problema com o sutiã de uma senhora artista e o fato de ganhar pouco dinheiro com as apresentações são motivos suficientes para que ele questione a sua existência? Para Benjamin ter entrado em uma crise, situações realmente complicadas e alguns desajustes o deveriam envolver de forma consistente. Se fossemos entrar em crises existenciais por conta de pequenas pressões, o número de suicidas seria muito maior do que é hoje. Por isso, sua crise é artificial. 

Assim como é artificial todo o enredo após esse conflito fraco. É nítido na interpretação de Selton Mello uma angustia forçada, sem uma verdadeira dor, sem um verdadeiro questionamento. A cena em que ele diz "Eu faço as pessoas rirem, mas quem vai me fazer rir?" gera uma certa vergonha alheia. Seus olhos lacrimejantes não convencem, assim como as imagens em que a menininha loirinha aparece observando tudo em sua volta, querendo demonstrar o quão sensível é o olhar infantil, também são forçadas e chegam a irritar, mais clichê impossível.

O filme tem sim algumas qualidades, mas está longe de ser uma obra prima como vem sendo tratado. A cena com o delegado, interpretado por Moacir Franco é o que há de mais original em todos os 90 minutos de projeção, o restante do filme tenta demonstrar, superficialmente, as influências de outros palhaços na vida do diretor, como Chaplin, Peter Sellers e Didi (Renato Aragão). Aliás, em muitos momentos nos lembramos dos enredos dos filmes dos Os Trapalhões. 

Portanto, O Palhaço é um filme de imagens plasticamente bonitas, planos sequências bem trabalhos, mas vazios. É pretensioso ao tentar ser sensível, simples, simbólico, poético e europeu, não se vê na tela uma sensibilidade natural, uma poesia como consequência, infelizmente, é superficial e artificial.

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