5 de março de 2011

Um pouco de evolução em Avatar


Para minha grande surpresa, descobri, pesquisando na internet, que a palavra Avatar vem do sãnscrito Avatãra, que significa “Aquele que descende de Deus”, ou “descida do céu para a terra de seres supraterrestres”, ou simplesmente “Encarnação”, ou seja, espírito que ocupa um corpo de carne. Algo tão próximo com a filosofia espírita de reencarnação não pode ser mera coincidência. E talvez não seja também mera coincidência o filme Avatar de James Cameron possuir muitos elementos desta belíssima filosofia.


O filme conta a história de Jake Sully, um ex fuzileiro da marinha, paraplégico, que é enviado ao planeta Pandora. Um planeta parecido com a Terra, mas com fauna e flora bem particulares. Na Terra, os humanos já estão no ano de 2154. Jake vai para Pandora com a missão de ajudar os humanos a conquistar a população nativa, os Na´vi, pois eles estão impedindo a exploração de um metal valiosíssimo, chamado Unobtanium. Jake, então, através de uma super tecnologia, ocupa um corpo de um Na´vi criado em laboratório o qual chama de Avatar. Ele, no seu avatar, se infiltra na sociedade nativa e aprende muita coisa, principalmente o modo como pensam, sua cultura, o relacionamento deles com a natureza. Tudo isso o transforma tanto, que acaba ficando contra os planos dos humanos.

E nessa transformação do personagem de Jake é que podemos identificar o quanto essa população nativa é evoluída. Eles usam o verbo sentir com mais afinco do que o verbo ter. A única coisa que eles têm, é plena consciência de que tudo que os rodeia é emprestado por Eywa (uma entidade que tudo equilibra), ou seja, o corpo deles, a alimentação, a natureza, qualquer item que sirva para a sobrevivência e que precisam devolver a Eywa o que utilizaram, inclusive a energia, no momento em que morrem.

Como nós humanos, eles se alimentam da carne de animais, mas só matam na quantidade que realmente necessitam. E a caça é como um ritual. Depois que acertam o animal, eles o tocam e fazem uma prece, da seguinte forma: “eu te vejo, irmão, e te agradeço. Que seu espírito se junte a Eywa. Seu corpo fica aqui para se tornar parte do Povo.” Esta última frase quer dizer que o corpo servirá como alimentação, ou seja, fará parte do Povo, mas que seu espírito pode se juntar a Eywa. E neste caso, quando ele diz que o vê, ele expressa o que está sentindo. Eles utilizam este verbo para designar o sentir. E esse tipo de morte é vista como uma 'morte limpa'.

Uma das passagens mais marcantes se dá no início do filme, para entendermos o quão diferente é a filosofia dos Na´vi. Jake, já incorporado ao seu avatar, se perde na floresta e encontra-se com uma nativa, a Neytiri. É noite e ele está em perigo. Há vários animais tentando atacá-lo. Ela pensa primeiro em matá-lo, mas uma semente da árvore sagrada, considerada como espírito puro, pousa na ponta de sua flexa. Ela vê aquilo como um sinal e resolve salvá-lo dos animais, os matando com flechadas. Rapidamente, ele tenta agradecê-la, mas ela o ignora. Ele insiste. Furiosa, diz a ele que esse tipo de coisa não tem agradecimento, pois aquela situação tinha sido culpa dele, pois tudo aquilo, na verdade, é muito triste. Aqueles animais não deveriam ter morrido, mas por culpa dele foram mortos. Ou seja, uma visão totalmente contrária a nossa, pois achamos que os animais que nos atacam devem ser dominados ou mortos. Na verdade, se eles nos atacam é porque os estamos desrespeitando. E durante essa cena, a nativa muitas vezes repete que “ele é como um bebê, só faz barulho, mas não sabe o que fazer”. Ela pode estar com toda a razão, pois perante a evolução ideal, ainda estamos engatinhando.

Outra ligação entre os Na´vi e os animais é a mental. Para meio de transporte eles utilizam seres relativamente parecidos com cavalos e seres voadores. Antes de utilizarem os animais, eles precisam fazer um tipo de conexão. A conexão se dá pela ponta dos cabelos dos Na´vi e a calda do animal. E assim, ao domá-lo e sentí-lo, os movimentos são coordenados mentalmente. Acredito que não seja exagero dizer que a idéia de conexão, palavra tão largamente usada na era digital, está ligada a idéia das conexões às quais estamos acostumados: telefone, internet, cabos USB, mas de forma ainda muito primitiva, pois  não dominamos nada com a mente, ainda. Estamos chegando perto disso. Só que o domínio terreno se dá em aparelhos eletrônicos, em objetos criados para nos servir. Já os Na´vi dominam e sentem os animais.

Nesta história, o grande conflito está na vontade ambiciosa do homem de enriquecer a custa da exploração de um minério valiosíssimo. Este mineral tem sua maior concentração em uma grande e belíssima árvore chamada de “casa da árvore”, que serve de moradia aos Na´vi. O homem, tomado por esse sentimento destruidor, com espírito ainda iludido pela riqueza, destrói essa casa. A árvore é derrubada impiedosamente. As cenas da destruição, das mortes, do pavor provocado na população nos remete às cenas da destruição do World Trade Center. Dizem que a intenção de James Cameron, o diretor, era exatamente essa. Acredito que o intuito maior dele é expor o quanto nós ainda somos primitivos, bárbaros e bem distantes do ideal de evolução. No meu ponto de vista, há um certo exagero nas cenas de brutalidade, que chegam a ser cansativas. 

Com este conflito, com esta destruição, trava-se uma guerra entre o povo Na´vi e os seres humanos, chamados de “o povo do céu”. Apenas 4 seres humanos estão do lado dos nativos. Entre eles, a Dra. Grace, pesquisadora cientista apaixonada por Pandora. Na fuga dela da central de onde “o povo do céu” controlava tudo, é atingida por um tiro. Para salvá-la, Jake a leva ao povo Na´vi, para que a ajudassem e surge então uma das cenas mais bonitas de todo o filme. O corpo humano de Grace é entregue à Árvore das Almas, local sagrado, onde todos os seres fazem conexão com a Eywa. Há muitos deles sentados em volta da árvore. E através de um ritual, vê se todos conectados a ela por fluídos magnéticos. Esses fluídos vão penetrando no corpo de Grace e a tentativa maior é que seu espírito deixe o corpo humano ferido e apodere-se de sua avatar, saudável. Mas, por estar muito fraca, tal transporte não foi possível. E ela se junta a Eywa, ou seja, ela morre. Um túnel de luz representa a sua passagem. Assim como os túneis de luz relatados por pessoas que tiveram experiência de quase morte aqui na terra.

Portanto, podemos dizer que há muita espiritualidade em Avatar. Os fluídos magnéticos, o equilíbrio da vida em Pandora determinada pela energia de Eywa, a Árvore das Almas, local sagrado onde a energia dos antepassados é possível de ser sentida, o respeito absoluto à natureza, a plena consciência de que não são proprietários de nada e que tudo é emprestado para que possam seguir na existência e de que tudo precisa ser devolvido, inclusive a energia. Avatar, portanto, não é apenas um filme de puro entretenimento, mas um filme para ser visto, ou melhor, sentido, absorvido, mesmo que seja pura ficção.

26 de fevereiro de 2011

A falta de prudência entre os seres e suas consequências em Babel

O mundo todo está interligado. Sabemos que uma ação aqui pode acarretar uma consequência lá do outro lado do planeta. Basta verificarmos as bolsas de valores e as economias dos países globalizados. Em Babel, filme do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu, de 2006, essa ligação fica muito clara. Nele, podemos verificar, nitidamente, o quanto somos responsáveis por tudo que acontece neste mundo, de bom e de ruim.

O filme evidencia as consequências ruins de um simples ato: um japonês que presenteou um marroquino com um rifle de caça. Este marroquino vende a arma a um vizinho que a coloca nas mãos dos filhos. Os filhos, imprudentes, testam a distância que o tiro do rifle pode atingir ao tentarem acertar um ônibus de turismo e a bala perfura o ombro de uma mulher americana sentada do lado da janela, mãe de dois filhos que estão nos EUA aos cuidados da babá mexicana. A babá, mesmo cuidando muito bem das crianças, está com a cabeça no México, ansiosa para ir a cerimônia de casamento do filho.Como não tem com quem deixar as crianças, pois a mãe está se recuperando no Marrocos, as carrega com ela. Na volta da festa, durante a madrugada, na fronteira entre o México e os EUA, ela e o sobrinho, que está na direção e um pouco embriagado, são interpelados pelos policiais. Ele não aguenta a pressão e rompe com a barreira, entra no deserto e abandona a tia com as crianças no meio do nada. Ela consegue socorro depois de muito tempo e é acusada de sequestro. Enquanto tudo isso acontece, no Japão, a polícia vai atrás do homem que presenteou o marroquino e descobre que a filha dele, surda e muda, órfã de mãe, é totalmente carente de atenção e compreensão.

O ato de presentear não é ruim, mas o problema é o tipo de presente, que no caso, foi um rifle. A função deste objeto nas mãos do japonês era apenas a caça, mas o ato de repassá-lo a outro, de forma imprudente, deu ao rifle a possibilidade de uma nova função. Por necessidade, este marroquino deu a ele uma função monetária. O comprador o viu como instrumento de trabalho, pois poderia matar os animais que comiam suas cabras, mas ao colocá-lo, imprudentemente, sem esclarecimento, sem educação, nas mãos dos filhos, o rifle virou arma e na imprudência da brincadeira atingiu a turista americana. O que acarretou uma série de acontecimentos.

Nestes acontecimentos, podemos detectar grandes falhas de nós, seres humanos. Preconceitos, impaciência, falta de caridade, falta de comunicação, tanto no ato de apenas ouvir quanto no ato de esclarecer, arrogância, individualismo, entre outros. Uma personagem que gostaria de ressaltar é a turista americana, Susan, interpretada por Cate Blanchet. Em suas primeiras cenas, no Marrocos, junto ao marido, enquanto estavam em um restaurante, podemos detectar, por pequenos detalhes, que ela é extremamente preocupada com limpeza, pois desinfeta suas mãos e recusa-se a utilizar o gelo oferecido para beberem o refrigerante, argumentando que não sabia de onde vinha aquela água. O seu desconforto com o ambiente, com as pessoas, fica totalmente nítido. Nos dá uma impressão de arrogância. Seu marido, interpretado pelo ator Brad Pitt, apenas pede para que ela relaxasse, que a intenção da viagem era essa, pois eles haviam perdido um filho, ainda bebê. E é justamente ela a atingida pelo tiro inesperado equanto o ônibus de turismo está na estrada, no meio do deserto. Hospitais ou clinicas de socorro estão a quilômetros de distância. Ela é levada, então, para a cidade do guia turístico que os acompanha. Lá, é submetida aos cuidados de um veterinário que dá pontos no local onde foi atingida, com uma agulha desinfetada apenas com um isqueiro e uma linha que não sabemos de onde ele tirou. Se os pontos não fossem dados, ela sangraria até morrer, pois a ajuda da embaixada poderia demorar. Além disso, uma senhora típica do local é quem ameniza as suas dores, ao oferecer ervas para ela fumar. Sem opção, para sobreviver, Susan se vê diante de todos os seus preconceitos e amarras e precisa engolí-los de uma forma brusca. Alguns seres humanos só se dão conta que não têm controle sobre quase nada, que não são melhores que ninguém, quando colocados em situações extremas como essa.

Há muitas outras situações no filme que retratam claramente nossas imperfeições e quanto devemos apurar nossa consciência com valores que parecem estar esquecidos neste mundo globalizado. O filme tem o mérito de colocar a raça humana em plano de igualdade. Mesmo falando diferentes línguas, em diferentes culturas, crendo em deuses distintos, somos todos iguais. Sentimos as mesmas dores quando atingidos, quando perdemos, quando sangramos. Somos dominados por necessidades físicas idênticas, tanto o pobre quanto o rico, aqui ou na China. No caso da Susan, a turista no Marrocos, o dinheiro, naquele momento não tinha poder algum, se ela não se submetesse àquelas pessoas, às quais, a momentos antes, ela havia desprezado, ela morreria.

E todos precisam de afeto em qualquer lugar do mundo e, acima de tudo, somos tão iguais que amamos da mesma forma, filhos, pais, homens, mulheres, amigos, conhecidos e afins, graus de parentesco iguais, do norte ao sul do leste ao oeste deste planeta todo interligado. Uma ação aqui no hemisfério sul, pode ter consequência, boa ou ruim, lá no hemisfério norte e nem tomamos conhecimento. Portanto, antes de agir, pensemos, prudentemente.