31 de dezembro de 2011

CONTRA A PAREDE (2004)

Filme: CONTRA A PAREDE (Gegen die Wand)
Diretor: Fatih Akin
Países: Alemanha e Turquia - 121 min.

Que surpresa agradabilíssima tive há alguns minutos. Estava folheando de trás para a frente o livro "1001 filmes para ver antes de morrer" e me deparei com a citação do filme "Contra a Parede" de Fatih Akin que assisti despretensiosamente na última quarta-feira. O aluguei por indicação de uma amiga que é fã do diretor. Gostei demais de todo o filme, inclusive da trilha sonora, mas não imaginava que ele estaria entre os 1001 até poucos minutos atrás e claro, merece estar. 

Fatih Akin retratou neste filme dois personagens turcos que vivem em Hamburgo na Alemanha. O Cahit (Birol Ünel), um punk viúvo, alcoólatra e drogado, totalmente perdido e Sibel (Sibel Kekilli) uma jovem que tenta se suicidar, pois  não se conforma em viver a vida que seus pais querem lhe impor, ou seja, dentro dos ditames religiosos e conservadores da cultura turca muçulmana. Ela quer curtir a vida, mas para isso precisa de liberdade e a liberdade só pode ser conquistada fora de sua família e a família só a deixará em paz quando se casar.

Foi em uma clínica de recuperação para jovens que tentam suicídio que Cahit, todo machucado depois de ter jogado seu carro contra a parede, conhece Sibel, que está lá por ter cortado os pulsos. Os dois se atraem, trocam algumas palavras e ela, de forma obsessiva, o convence a se casar por conveniência. É o ingresso de Sibel para uma vida de sexo, drogas e rock n´roll. Só que um elemento puramente humano vem se assomar a trama: o amor. Cahit se apaixona por ela, mas não é correspondido em um primeiro momento, até que ela se sensibiliza com todo esse carinho e também começa a amá-lo, mas uma tragédia vira toda a história e ambos sofrem transformações significativas.

Fatih Akin, por conhecer bem a situação dos jovens descendentes de turcos que vivem em países da Europa, como Alemanha,  coloca nas telas o conflito entre culturas e religiões. São jovens que se vêm obrigados a seguir a cultura conservadora de suas famílias e fora de suas casas são seduzidos pela modernidade e pela liberdade de um país europeu. Em "Contra a Parede", ele demonstra as consequências das escolhas de cada personagem e se uma história não começa bem, também não pode terminar bem.

O interessante é que o filme, visto por nós que vivemos em uma cultura livre, apenas conta a história de duas pessoas marginalizadas que acabam se amando, mas para os turcos, os muçulmanos, cuja cultura religiosa e conservadora dita as regras de comportamento das pessoas, esse filme é uma afronta a tudo que valorizam. Portanto, é um filme corajoso, de um cineasta que sabe o que está falando, pois pertence a uma família turca que vive, exatamente, em Hamburgo, na Alemanha.


ACOSSADO (1960)

Filme: ACOSSADO (A Bout de Souffle) - 1960
Diretor: Jean-Luc Godard
País: França - 87 min.

Hoje revi "Acossado" do cineasta francês Jean-Luc Godard e confesso que não acho um filme imprescindível para a vida. Ele é importante por ser o primeiro longa do cineasta, já inserido na Nouvelle Vague (nova onda, em português), movimento do cinema francês que foi contra a forma clássica de se filmar uma história, aquela em que a narrativa é linear, com roteiros bem desenhados, que tenta deixar tudo muito bem explicado ao espectador e com intervenção total do diretor. O movimento Nouvelle Vague e "Acossado" é o contrário de tudo isso. Godard escrevia as cenas que desejava filmar no dia pela manhã. Havia um argumento pré estabelecido e junto dele muita improvisação. Ele tentava passar para a tela a situação mais real possível. A base da história é de François Truffaut, o personagem Michel Poiccard, um bandido que rouba um carro, mata um policial e ao chegar em Paris, tenta persuadir uma jornalista americana a fugir para a Itália com ele.

O filme é considerado importante por inovar em sua forma, seu ritmo. A montadora Cécile Decugis e Godard imprimiram na tela uma nova forma de se fazer cinema. Os cortes, que nas convenções clássicas do cinema deveriam passar desapercebidos, em "Acossado" chamam, propositalmente, muita atenção, dando uma impressão entrecortada ao filme, como se fosse um disco arranhado. Nele também podemos ver o personagem falando diretamente para a câmera, como se estivesse conversando com o espectador. Recurso pouco ou nunca utilizado no cinema daquela época. 

Apesar de toda essa inovação, o conteúdo de "Acossado" é fraco.Há muitas citações de escritores, músicos e artistas plásticos, mas apenas citações. Para aqueles que estudam cinema a fundo, que gostam de ver a evolução das montagens, o que foi inovado na época, Acossado é de extrema importância. E nesta época, Godard não foi o único que inovou. Muitos outros e mais importantes cineastas estavam na mesma onda. 


11 de dezembro de 2011

A LIBERDADE É AZUL (1993)

Filme: A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu) - 1993
Diretor: Krzysztof Kieslowski
Países: França, Polônia e Suíça - 100 min.

Hoje foi a segunda vez que vi esse filme e posso considerar como a primeira. A única cena que havia ficado em minha mente era a da personagem Julie (Juliette Binoche), quando ela se autoflagela ao raspar sua mão direita em um muro áspero. Essa ação da protagonista demonstra sua tentativa de sentir uma dor maior do que aquela que ela estava sentindo, a dor da perda de sua filha e de seu marido em um acidente de carro. Uma cena sem diálogo, sem palavras, totalmente expressiva, intensa.

E essa intensidade está em cada cena, em cada fotografia, pois o diretor polonês Krzysztof Kieslowski trabalha com a emoção de cada objeto, de cada fala e suas influências na trajetória, nas ações e emoções da personagem. Assistir a um filme como esse depois de muitos anos é uma experiência interessante, pois o olhar está mais apurado, na mente há mais repertório. E com isso eu pude ver a imensidão de simbolismos, como na sequência em que Julie está em um café e pega um pequeno cubo de açúcar e o aproxima do líquido. O café é absorvido pelo cubo e após ficar totalmente úmido, é jogado na xícara que transborda. Esta cena representa o que que muitas vezes desejamos ou imaginamos fazer quando estamos absorvidos de sentimentos difíceis que nos machucam: afundar totalmente nesses sentimentos e sumir. 

Este filme é o primeiro da Trilogia das Cores, e última sequência de filmes do diretor polonês que faleceu em 1996. As cores da bandeira francesa, azul, branca e vermelha, estão associadas aos ideais da Revolução Francesa de 1789, liberdade, igualdade e fraternidade. Por meio de histórias relativamente comuns, o diretor questiona esses ideais. Em A Liberdade é Azul, por mais que a personagem Julie tente se ver livre de memórias e passado, por mais que tente não criar vínculos, ela não consegue. Acontecimentos, objetos ou simples perguntas são estopins para que ela volte ao passado. Alguns acontecimentos a fazem perceber que depende da ajuda ou precisa ajudar alguém. O ideal de liberdade é totalmente minado por simplesmente viver. Portanto, talvez essa liberdade que tanto foi defendida, seja apenas uma ilusão pela qual se tenta viver. 

Um filme difícil, intenso, de uma sensibilidade marcante e que sim, deve ser visto antes de morrer por aqueles que realmente tentam enxergar o que há de mais complexo em viver. 


ROMA, CIDADE ABERTA (1945)

Filme: ROMA, CIDADE ABERTA (Roma, Città Aperta) - 1945
Diretor: Roberto Rossellini
País: Itália - 100 min.


Roma, Cidade Aberta pode ser considerado um documento do pós Segunda Guerra em Roma. Filmado em 1945, ano que a guerra acabou, o filme mostra a cidade de Roma ainda ocupada pelos nazistas. É uma ficção extremamente realista, tanto que este filme é considerado o percursor do movimento estético do cinema italiano, chamado neo-realismo. 

Paul Kael, autor do livro "1.001 noites no cinema", editado pela Cia das Letras em 1994, escreveu: "Roberto Rossellini escancara o mundo com este filme, feito logo após os Aliados terem tomado Roma. A fama deste relato melodramático e brutal da resistência clandestina à ocupação nazista está em seu extraordinário imediatismo e em seu visual bruto, documental; quase sempre surpreendente, parece mais 'captado' que representado". E Paul Kael tem toda razão, parece um filme documental, principalmente em suas primeiras imagens e nas cenas em locações externas. Roma ainda estava sob os efeitos da guerra. 

O filme conta a história de Giorgio Manfredi (Marcello Pagliero), um líder do movimento de resistência a ocupação nazista, que está sendo procurado pela Gestapo. Giorgi se esconde na casa de Francesco (Francesco Grandjacquet), um tipógrafo que também faz parte do movimento e que está prestes a se casar com Pina (Anna Magnani). Todos eles são personagens que estão a todo tempo burlando regras para sobreviver em uma cidade "desgovernada". A Igreja Católica aparece como aliada ao movimento com ajuda do padre Don Pietro (Aldo Fabrizi) que tem uma certa liberdade perante o exército alemão.

Roberto Rosselini conseguiu colocar na tela os momentos mais sombrios de Roma, tendo a cidade como uma de suas personagens. Ela é vista do alto no início e no final do filme. Teve como parceiro o iniciante Federico Fellini, que dividiu o roteiro e assistência a direção com Sergio Amidei. O filme foi considerado revelação no Festival de Cannes de 1946 e no qual recebeu a Palma de Ouro. Não poderia ser diferente, pois trouxe ao cinema uma nova forma de filmar, com a câmera mais livre, com uma história real e com personagens autênticos. 

Contou com interpretação magistral de Anna Magnani, que roubou todas as cenas das quais participou. É inesquecível a sequência que ela sai correndo atrás de Francesco depois dele ser capturado pelos soldados alemães e é assassinada com a frieza comum dos nazistas, tantas vezes representada no cinema anos depois. 


Portanto, Roma, Cidade Aberta foi o primeiro filme a colocar na tela os horrores nazistas. Um filme de extrema importância para a história do cinema italiano e do mundo. 







5 de dezembro de 2011

FALE COM ELA (2002)

Filme: FALE COM ELA (Hable con ella) - 2002
Diretor: Pedro Almodóvar
País: Espanha - 112 min.

Deve ser a quinta ou sexta vez que vejo esta obra prima de Pedro Almodóvar.  É o 14º longa do diretor espanhol e considerado um dos mais comportados de toda a sua obra. Além disso, eu diria que talvez seja o mais poético, mesmo abordando temas pesados, como estupro, mulheres em coma e obsessões amorosas.

Um filme de Almodóvar que cala as mulheres, que foca tudo nos sentimentos masculinos, os mostrando frágeis, obsessivos, dedicados, sensíveis e dependentes. O homem entregue ao amor. No filme, podemos ver três tipos de amor, o carnal entre o jornalista Marco Zuluaga (Darío Grandinetti) e a toureira Lydia González (Rosario Flores), o platônico, entre o enfermeiro dedicado Benigno Martín (Javier Cámara) e a aprendiz de bailarina Alicia (Leonor Watling) e o fraternal, entre os amigos Marco e Benigno. Todos incondicionais, dedicados a sua forma plena, passíveis de erros tremendos, mas humanos. E tudo isso mostrado de forma sutil, calma e elegante, com um roteiro muito bem estruturado, que se utiliza de flashbacks para constituir e explicar as histórias de seus protagonistas.


Outro mérito do filme são as belíssimas cenas com lindas trilhas sonoras. Sim, carreguei a frase anterior com vários adjetivos porque essa é a verdade. Inesquecível é a sequência da apresentação da personagem de Lydia, a toureira. Ela duela com o touro ao som da música "Por Toda Minha Vida", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, interpretada por Elis Regina. Para completar, em meio a um sonho do jornalista Marco Zuluaga, somos presenteados com uma apresentação de Caetano Veloso cantando Cucurucucu Paloma., veja vídeo acima. São duas sequências que, por si só, colocam o filme no patamar dos imprescindíveis.

O diretor também nos surpreende ao demonstrar, com muita sutileza, que em uma das relações ocorreu um estupro. Ele intercala na narrativa cenas em preto e branco de um filme mudo, em que o personagem, marido de uma cientista, ao ser encolhido em uma experiência, entra, literalmente, em sua mulher e por lá fica para sempre. São cenas surreais e sugestivas, deixando em nós uma leve dúvida para ser sanada posteriormente.

"Fale com ela" aborda, acima de tudo o amor. O amor platônico, o carnal, o obsessivo, o incondicional, o fraternal e o amor pelo cinema, pelas belas imagens, pela dança e pela música. Uma homenagem a muitas artes e inclusive a arte de ser humano. 


4 de dezembro de 2011

"O Palhaço" é artificial

O segundo longa de Selton Mello não é tudo o que as pessoas têm falado, não vi poesia, não vi um drama verdadeiro, não vi grandes interpretações, apenas imagens bonitas, bem enquadradas e coloridas, que acredito, tenham cegado a maioria do público e dos críticos. 

Podemos dizer que a fotografia é incrível, a direção de arte está de parabéns, a trilha sonora é bacaninha, agora o roteiro deixa muito a desejar. É sofrível perceber que a crise existencial de Benjamin (Selton Mello) tenha se desencadeado quando ele sai do circo, após uma apresentação e é abordado seguidamente por toda a trupe lhe cobrando coisas, lhe dando sugestões. Em um único plano sequência, que parecia uma propaganda da Nextel, toda a trupe resolve reclamar e pressionar o filho do dono do circo. A obsessão pela compra de um ventilador, o problema com o sutiã de uma senhora artista e o fato de ganhar pouco dinheiro com as apresentações são motivos suficientes para que ele questione a sua existência? Para Benjamin ter entrado em uma crise, situações realmente complicadas e alguns desajustes o deveriam envolver de forma consistente. Se fossemos entrar em crises existenciais por conta de pequenas pressões, o número de suicidas seria muito maior do que é hoje. Por isso, sua crise é artificial. 

Assim como é artificial todo o enredo após esse conflito fraco. É nítido na interpretação de Selton Mello uma angustia forçada, sem uma verdadeira dor, sem um verdadeiro questionamento. A cena em que ele diz "Eu faço as pessoas rirem, mas quem vai me fazer rir?" gera uma certa vergonha alheia. Seus olhos lacrimejantes não convencem, assim como as imagens em que a menininha loirinha aparece observando tudo em sua volta, querendo demonstrar o quão sensível é o olhar infantil, também são forçadas e chegam a irritar, mais clichê impossível.

O filme tem sim algumas qualidades, mas está longe de ser uma obra prima como vem sendo tratado. A cena com o delegado, interpretado por Moacir Franco é o que há de mais original em todos os 90 minutos de projeção, o restante do filme tenta demonstrar, superficialmente, as influências de outros palhaços na vida do diretor, como Chaplin, Peter Sellers e Didi (Renato Aragão). Aliás, em muitos momentos nos lembramos dos enredos dos filmes dos Os Trapalhões. 

Portanto, O Palhaço é um filme de imagens plasticamente bonitas, planos sequências bem trabalhos, mas vazios. É pretensioso ao tentar ser sensível, simples, simbólico, poético e europeu, não se vê na tela uma sensibilidade natural, uma poesia como consequência, infelizmente, é superficial e artificial.