31 de dezembro de 2011

CONTRA A PAREDE (2004)

Filme: CONTRA A PAREDE (Gegen die Wand)
Diretor: Fatih Akin
Países: Alemanha e Turquia - 121 min.

Que surpresa agradabilíssima tive há alguns minutos. Estava folheando de trás para a frente o livro "1001 filmes para ver antes de morrer" e me deparei com a citação do filme "Contra a Parede" de Fatih Akin que assisti despretensiosamente na última quarta-feira. O aluguei por indicação de uma amiga que é fã do diretor. Gostei demais de todo o filme, inclusive da trilha sonora, mas não imaginava que ele estaria entre os 1001 até poucos minutos atrás e claro, merece estar. 

Fatih Akin retratou neste filme dois personagens turcos que vivem em Hamburgo na Alemanha. O Cahit (Birol Ünel), um punk viúvo, alcoólatra e drogado, totalmente perdido e Sibel (Sibel Kekilli) uma jovem que tenta se suicidar, pois  não se conforma em viver a vida que seus pais querem lhe impor, ou seja, dentro dos ditames religiosos e conservadores da cultura turca muçulmana. Ela quer curtir a vida, mas para isso precisa de liberdade e a liberdade só pode ser conquistada fora de sua família e a família só a deixará em paz quando se casar.

Foi em uma clínica de recuperação para jovens que tentam suicídio que Cahit, todo machucado depois de ter jogado seu carro contra a parede, conhece Sibel, que está lá por ter cortado os pulsos. Os dois se atraem, trocam algumas palavras e ela, de forma obsessiva, o convence a se casar por conveniência. É o ingresso de Sibel para uma vida de sexo, drogas e rock n´roll. Só que um elemento puramente humano vem se assomar a trama: o amor. Cahit se apaixona por ela, mas não é correspondido em um primeiro momento, até que ela se sensibiliza com todo esse carinho e também começa a amá-lo, mas uma tragédia vira toda a história e ambos sofrem transformações significativas.

Fatih Akin, por conhecer bem a situação dos jovens descendentes de turcos que vivem em países da Europa, como Alemanha,  coloca nas telas o conflito entre culturas e religiões. São jovens que se vêm obrigados a seguir a cultura conservadora de suas famílias e fora de suas casas são seduzidos pela modernidade e pela liberdade de um país europeu. Em "Contra a Parede", ele demonstra as consequências das escolhas de cada personagem e se uma história não começa bem, também não pode terminar bem.

O interessante é que o filme, visto por nós que vivemos em uma cultura livre, apenas conta a história de duas pessoas marginalizadas que acabam se amando, mas para os turcos, os muçulmanos, cuja cultura religiosa e conservadora dita as regras de comportamento das pessoas, esse filme é uma afronta a tudo que valorizam. Portanto, é um filme corajoso, de um cineasta que sabe o que está falando, pois pertence a uma família turca que vive, exatamente, em Hamburgo, na Alemanha.


ACOSSADO (1960)

Filme: ACOSSADO (A Bout de Souffle) - 1960
Diretor: Jean-Luc Godard
País: França - 87 min.

Hoje revi "Acossado" do cineasta francês Jean-Luc Godard e confesso que não acho um filme imprescindível para a vida. Ele é importante por ser o primeiro longa do cineasta, já inserido na Nouvelle Vague (nova onda, em português), movimento do cinema francês que foi contra a forma clássica de se filmar uma história, aquela em que a narrativa é linear, com roteiros bem desenhados, que tenta deixar tudo muito bem explicado ao espectador e com intervenção total do diretor. O movimento Nouvelle Vague e "Acossado" é o contrário de tudo isso. Godard escrevia as cenas que desejava filmar no dia pela manhã. Havia um argumento pré estabelecido e junto dele muita improvisação. Ele tentava passar para a tela a situação mais real possível. A base da história é de François Truffaut, o personagem Michel Poiccard, um bandido que rouba um carro, mata um policial e ao chegar em Paris, tenta persuadir uma jornalista americana a fugir para a Itália com ele.

O filme é considerado importante por inovar em sua forma, seu ritmo. A montadora Cécile Decugis e Godard imprimiram na tela uma nova forma de se fazer cinema. Os cortes, que nas convenções clássicas do cinema deveriam passar desapercebidos, em "Acossado" chamam, propositalmente, muita atenção, dando uma impressão entrecortada ao filme, como se fosse um disco arranhado. Nele também podemos ver o personagem falando diretamente para a câmera, como se estivesse conversando com o espectador. Recurso pouco ou nunca utilizado no cinema daquela época. 

Apesar de toda essa inovação, o conteúdo de "Acossado" é fraco.Há muitas citações de escritores, músicos e artistas plásticos, mas apenas citações. Para aqueles que estudam cinema a fundo, que gostam de ver a evolução das montagens, o que foi inovado na época, Acossado é de extrema importância. E nesta época, Godard não foi o único que inovou. Muitos outros e mais importantes cineastas estavam na mesma onda. 


11 de dezembro de 2011

A LIBERDADE É AZUL (1993)

Filme: A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu) - 1993
Diretor: Krzysztof Kieslowski
Países: França, Polônia e Suíça - 100 min.

Hoje foi a segunda vez que vi esse filme e posso considerar como a primeira. A única cena que havia ficado em minha mente era a da personagem Julie (Juliette Binoche), quando ela se autoflagela ao raspar sua mão direita em um muro áspero. Essa ação da protagonista demonstra sua tentativa de sentir uma dor maior do que aquela que ela estava sentindo, a dor da perda de sua filha e de seu marido em um acidente de carro. Uma cena sem diálogo, sem palavras, totalmente expressiva, intensa.

E essa intensidade está em cada cena, em cada fotografia, pois o diretor polonês Krzysztof Kieslowski trabalha com a emoção de cada objeto, de cada fala e suas influências na trajetória, nas ações e emoções da personagem. Assistir a um filme como esse depois de muitos anos é uma experiência interessante, pois o olhar está mais apurado, na mente há mais repertório. E com isso eu pude ver a imensidão de simbolismos, como na sequência em que Julie está em um café e pega um pequeno cubo de açúcar e o aproxima do líquido. O café é absorvido pelo cubo e após ficar totalmente úmido, é jogado na xícara que transborda. Esta cena representa o que que muitas vezes desejamos ou imaginamos fazer quando estamos absorvidos de sentimentos difíceis que nos machucam: afundar totalmente nesses sentimentos e sumir. 

Este filme é o primeiro da Trilogia das Cores, e última sequência de filmes do diretor polonês que faleceu em 1996. As cores da bandeira francesa, azul, branca e vermelha, estão associadas aos ideais da Revolução Francesa de 1789, liberdade, igualdade e fraternidade. Por meio de histórias relativamente comuns, o diretor questiona esses ideais. Em A Liberdade é Azul, por mais que a personagem Julie tente se ver livre de memórias e passado, por mais que tente não criar vínculos, ela não consegue. Acontecimentos, objetos ou simples perguntas são estopins para que ela volte ao passado. Alguns acontecimentos a fazem perceber que depende da ajuda ou precisa ajudar alguém. O ideal de liberdade é totalmente minado por simplesmente viver. Portanto, talvez essa liberdade que tanto foi defendida, seja apenas uma ilusão pela qual se tenta viver. 

Um filme difícil, intenso, de uma sensibilidade marcante e que sim, deve ser visto antes de morrer por aqueles que realmente tentam enxergar o que há de mais complexo em viver. 


ROMA, CIDADE ABERTA (1945)

Filme: ROMA, CIDADE ABERTA (Roma, Città Aperta) - 1945
Diretor: Roberto Rossellini
País: Itália - 100 min.


Roma, Cidade Aberta pode ser considerado um documento do pós Segunda Guerra em Roma. Filmado em 1945, ano que a guerra acabou, o filme mostra a cidade de Roma ainda ocupada pelos nazistas. É uma ficção extremamente realista, tanto que este filme é considerado o percursor do movimento estético do cinema italiano, chamado neo-realismo. 

Paul Kael, autor do livro "1.001 noites no cinema", editado pela Cia das Letras em 1994, escreveu: "Roberto Rossellini escancara o mundo com este filme, feito logo após os Aliados terem tomado Roma. A fama deste relato melodramático e brutal da resistência clandestina à ocupação nazista está em seu extraordinário imediatismo e em seu visual bruto, documental; quase sempre surpreendente, parece mais 'captado' que representado". E Paul Kael tem toda razão, parece um filme documental, principalmente em suas primeiras imagens e nas cenas em locações externas. Roma ainda estava sob os efeitos da guerra. 

O filme conta a história de Giorgio Manfredi (Marcello Pagliero), um líder do movimento de resistência a ocupação nazista, que está sendo procurado pela Gestapo. Giorgi se esconde na casa de Francesco (Francesco Grandjacquet), um tipógrafo que também faz parte do movimento e que está prestes a se casar com Pina (Anna Magnani). Todos eles são personagens que estão a todo tempo burlando regras para sobreviver em uma cidade "desgovernada". A Igreja Católica aparece como aliada ao movimento com ajuda do padre Don Pietro (Aldo Fabrizi) que tem uma certa liberdade perante o exército alemão.

Roberto Rosselini conseguiu colocar na tela os momentos mais sombrios de Roma, tendo a cidade como uma de suas personagens. Ela é vista do alto no início e no final do filme. Teve como parceiro o iniciante Federico Fellini, que dividiu o roteiro e assistência a direção com Sergio Amidei. O filme foi considerado revelação no Festival de Cannes de 1946 e no qual recebeu a Palma de Ouro. Não poderia ser diferente, pois trouxe ao cinema uma nova forma de filmar, com a câmera mais livre, com uma história real e com personagens autênticos. 

Contou com interpretação magistral de Anna Magnani, que roubou todas as cenas das quais participou. É inesquecível a sequência que ela sai correndo atrás de Francesco depois dele ser capturado pelos soldados alemães e é assassinada com a frieza comum dos nazistas, tantas vezes representada no cinema anos depois. 


Portanto, Roma, Cidade Aberta foi o primeiro filme a colocar na tela os horrores nazistas. Um filme de extrema importância para a história do cinema italiano e do mundo. 







5 de dezembro de 2011

FALE COM ELA (2002)

Filme: FALE COM ELA (Hable con ella) - 2002
Diretor: Pedro Almodóvar
País: Espanha - 112 min.

Deve ser a quinta ou sexta vez que vejo esta obra prima de Pedro Almodóvar.  É o 14º longa do diretor espanhol e considerado um dos mais comportados de toda a sua obra. Além disso, eu diria que talvez seja o mais poético, mesmo abordando temas pesados, como estupro, mulheres em coma e obsessões amorosas.

Um filme de Almodóvar que cala as mulheres, que foca tudo nos sentimentos masculinos, os mostrando frágeis, obsessivos, dedicados, sensíveis e dependentes. O homem entregue ao amor. No filme, podemos ver três tipos de amor, o carnal entre o jornalista Marco Zuluaga (Darío Grandinetti) e a toureira Lydia González (Rosario Flores), o platônico, entre o enfermeiro dedicado Benigno Martín (Javier Cámara) e a aprendiz de bailarina Alicia (Leonor Watling) e o fraternal, entre os amigos Marco e Benigno. Todos incondicionais, dedicados a sua forma plena, passíveis de erros tremendos, mas humanos. E tudo isso mostrado de forma sutil, calma e elegante, com um roteiro muito bem estruturado, que se utiliza de flashbacks para constituir e explicar as histórias de seus protagonistas.


Outro mérito do filme são as belíssimas cenas com lindas trilhas sonoras. Sim, carreguei a frase anterior com vários adjetivos porque essa é a verdade. Inesquecível é a sequência da apresentação da personagem de Lydia, a toureira. Ela duela com o touro ao som da música "Por Toda Minha Vida", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, interpretada por Elis Regina. Para completar, em meio a um sonho do jornalista Marco Zuluaga, somos presenteados com uma apresentação de Caetano Veloso cantando Cucurucucu Paloma., veja vídeo acima. São duas sequências que, por si só, colocam o filme no patamar dos imprescindíveis.

O diretor também nos surpreende ao demonstrar, com muita sutileza, que em uma das relações ocorreu um estupro. Ele intercala na narrativa cenas em preto e branco de um filme mudo, em que o personagem, marido de uma cientista, ao ser encolhido em uma experiência, entra, literalmente, em sua mulher e por lá fica para sempre. São cenas surreais e sugestivas, deixando em nós uma leve dúvida para ser sanada posteriormente.

"Fale com ela" aborda, acima de tudo o amor. O amor platônico, o carnal, o obsessivo, o incondicional, o fraternal e o amor pelo cinema, pelas belas imagens, pela dança e pela música. Uma homenagem a muitas artes e inclusive a arte de ser humano. 


4 de dezembro de 2011

"O Palhaço" é artificial

O segundo longa de Selton Mello não é tudo o que as pessoas têm falado, não vi poesia, não vi um drama verdadeiro, não vi grandes interpretações, apenas imagens bonitas, bem enquadradas e coloridas, que acredito, tenham cegado a maioria do público e dos críticos. 

Podemos dizer que a fotografia é incrível, a direção de arte está de parabéns, a trilha sonora é bacaninha, agora o roteiro deixa muito a desejar. É sofrível perceber que a crise existencial de Benjamin (Selton Mello) tenha se desencadeado quando ele sai do circo, após uma apresentação e é abordado seguidamente por toda a trupe lhe cobrando coisas, lhe dando sugestões. Em um único plano sequência, que parecia uma propaganda da Nextel, toda a trupe resolve reclamar e pressionar o filho do dono do circo. A obsessão pela compra de um ventilador, o problema com o sutiã de uma senhora artista e o fato de ganhar pouco dinheiro com as apresentações são motivos suficientes para que ele questione a sua existência? Para Benjamin ter entrado em uma crise, situações realmente complicadas e alguns desajustes o deveriam envolver de forma consistente. Se fossemos entrar em crises existenciais por conta de pequenas pressões, o número de suicidas seria muito maior do que é hoje. Por isso, sua crise é artificial. 

Assim como é artificial todo o enredo após esse conflito fraco. É nítido na interpretação de Selton Mello uma angustia forçada, sem uma verdadeira dor, sem um verdadeiro questionamento. A cena em que ele diz "Eu faço as pessoas rirem, mas quem vai me fazer rir?" gera uma certa vergonha alheia. Seus olhos lacrimejantes não convencem, assim como as imagens em que a menininha loirinha aparece observando tudo em sua volta, querendo demonstrar o quão sensível é o olhar infantil, também são forçadas e chegam a irritar, mais clichê impossível.

O filme tem sim algumas qualidades, mas está longe de ser uma obra prima como vem sendo tratado. A cena com o delegado, interpretado por Moacir Franco é o que há de mais original em todos os 90 minutos de projeção, o restante do filme tenta demonstrar, superficialmente, as influências de outros palhaços na vida do diretor, como Chaplin, Peter Sellers e Didi (Renato Aragão). Aliás, em muitos momentos nos lembramos dos enredos dos filmes dos Os Trapalhões. 

Portanto, O Palhaço é um filme de imagens plasticamente bonitas, planos sequências bem trabalhos, mas vazios. É pretensioso ao tentar ser sensível, simples, simbólico, poético e europeu, não se vê na tela uma sensibilidade natural, uma poesia como consequência, infelizmente, é superficial e artificial.

27 de novembro de 2011

ROCCO E SEUS IRMÃOS (1960)

Filme: ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco i suoi fratelli) - 1960
Diretor: Luchino Visconti
Países: Itália e França - 169 min.

Hoje assisti ao italiano "Rocco e Seus Irmãos", considerado um dos filmes mais conhecidos do diretor Luchino Visconti (1906-1976).

Ele não traz muito da estética neorealista italiana da qual Visconti fez parte. Trata-se de um melodrama, com atores conhecidos da época, como Alain Delon, Renato Salvatori e Annie Girardot. O diretor conta a história de uma família de migrantes que saem de uma cidade pobre do sul da Itália para viverem em Milão. A matriarca, Rosaria Parondi, depois de ficar viúva, se muda para Milão com seus quatro filhos, para viver junto a Vicenzo, filho mais velho que já vive na cidade grande. Mas a dureza e frieza comum a cidades como Milão, faz com que surjam muitos conflitos entre os 5 irmãos, desestruturando toda a família.

Portanto, trata-se de um filme com uma carga sociológica muito grande, tentando demonstrar que o meio influencia sim o homem, como acontece com o Simone (Renato Salvatori), um dos irmãos, que se perde totalmente nas ilusões proporcionadas pela cidade, como: dinheiro, mulheres, vícios e etc... Além disso, demonstra a situação da Itália na época, em que no Sul as pessoas viviam em grande pobreza enquanto o Norte estava mergulhado no crescimento econômico e na riqueza. Para evidenciar isso, Visconti transforma um dos irmãos, o Ciro, em um operário da montadora Alfa Romeo em Milão.

Apesar dessas características realistas e sociológicas, algumas interpretações não são muito convincentes. É difícil encarar Alain Delon como boxeador, não passa muita credibilidade, sua carinha de bom moço não combina com boxeadores. Também há um certo exagero na interpretação da matriarca Rosaria Parondi, por Katina Paxinou, pois trata-se de uma mãe sempre dramática e histérica. Um histerismo às vezes desnecessário.

Um das belezas do filme está na fotografia em preto e branco de Giuseppe Rotunno e na música do excelente Nino Rota, que fez a trilha de quase todos os filmes de Federico Fellini. Portanto, cheio de importâncias históricas e sociais, o filme deve ser assistido por quem diz gostar de cinema de verdade.



26 de novembro de 2011

Cinelumens recomenda: A CHAVE DE SARAH

Eu já disse isso uma vez e terei que dizer novamente: quando penso que o cinema já retratou ou recontou tudo sobre a segunda guerra, inclusive os massacres ao povo judeu, um novo filme surge, com uma nova história e ainda surpreende. 

É o caso do francês A CHAVE DE SARAH (2011), dirigido por Gilles Paquet-Brenner, baseado no livro "Elle S´Appelait Sarah", de Tatiana de Rosnay. Ele conta a história de uma jornalista chamada Julia (Kristin Scott Thomas) que vive em Paris nos tempos atuais e que ao fazer uma matéria sobre os judeus que sofreram com o nazismo na França se vê envolvida com a história de Sarah Starzinsky, menina que sobreviveu aos campos de concentração.

Muito bem estruturado, o filme nos envolve com Sarah tanto quanto a jornalista demonstra estar envolvida com a menina. As histórias se entrelaçam e ganham desfechos reais. Além disso, somos presenteados com imagens marcantes, como a que Sarah tenta salvar a chave do armário, lugar onde deixou seu irmão trancado para não ser pego pelos soldados, quando está em meio ao desespero por ser separada de sua mãe no campo de concentração. 

Além disso, podemos contar com ótimas interpretações, como a da Mélusine Mayance, que faz a Sarah menina, e a de Niels Arestrup, que faz Jules Dufaure, o homem que recepcionou Sarah e uma amiga quando estavam fugindo do campo. Seus olhares são marcantes, inesquecíveis, daqueles que nada precisa ser dito.

Portanto, mais um filme para lembrarmos o quanto os seres humanos podem ser cruéis e o quanto outros podem ser tão humanos. Para lembrarmos que a vida ainda pode ter significados grandiosos. 





22 de novembro de 2011

GANDHI (1982)

Filme: GANDHI (Gandhi) - 1982
Diretor: Richard Attenborough
Países: Inglaterra e Índia - 188 min.

Esse filme conta a trajetória de uma personalidade importante de nossa história. Dessa vez, a vida de um ativista religioso e político, de grande espiritualidade: Mohandas Kharamchand Gandhi (1869-1948), também conhecido como Mahatma (que se traduzido, quer dizer: 'grande alma').

Fazer esse filme era um sonho particular de Richard Attenborough, representava para ele uma missão. Depois de vários obstáculos, falta de dinheiro, atrasos e afins, Richard conseguiu trazer às telas vários momentos biográficos significativos da vida de Gandhi. A essência desses momento foi a luta do líder contra a dominação do império britânico na Índia. A sua estratégica era baseada sempre na desobediência civil às leis britânicas. Uma luta cujo objetivo era desmoralizar os ingleses. Essa prática é evidente em passagens marcantes do filme. A que mais se destaca é quando mais de 15 mil indianos se reúnem em Amristar para ouvirem orientações de um dos mensageiros de Gandhi. Este tipo de reunião é proibida no país, vai contra a lei. Por esta desobediência, 15 mil homens, mulheres e crianças desarmados foram assassinados pelo exército inglês. Um massacre de proporção gigantesca. Com tal atitude, os ingleses são desmoralizados perante o país e o mundo. Ato que deixou evidente a covardia da violência, a falta de razão dos agressores e aos agredidos ficou a demonstração de coragem e elevação. Segundo Gandhi, 'É muito melhor ser morto do que matar. É muito melhor ser justo do que injusto'. Em uma das primeiras cenas do filme, ele diz que pela ideologia da igualdade até morreria, mas jamais mataria. Infelizmente, em uma luta que ele sempre desejou fazer sem nenhuma violência, levou milhares de pessoas à morte. 

Este filme possui também grandes números, começando por sua duração de 188 minutos, são mais de três horas; a cena do funeral de Gandhi reuniu, na avenida cerimonial chamada Rajpath, cerca de 400 mil figurantes com 11 equipes de filmagem; muitas sequências foram filmadas nas locações históricas reais. Depois de tanto esforço, o filme teve sua importância reconhecida em Hollywood ao ser premiado oito vezes com o Oscar. 

Para a atuação do líder espiritual, muitos nomes conhecidos, de várias gerações foram cogitados, mas o escolhido foi Ben Kingsley, desconhecido na época. Este ator dedicou-se a viver Gandhi por completo. Perdeu peso, praticou ioga, aprendeu a tecer algodão e tentou viver a vida segundo os preceitos severos do seu personagem. Na tela nossos olhos podem ver o resultado de tamanha dedicação. 

Portanto, trata-se de um filme rico em diversos aspectos: história, política, espiritualidade, ética, cultura e outras virtudes. E cabe dizer: é proibido deixar de ver antes de morrer a história dessa 'grande alma' e tirar suas próprias conclusões, filtrar o que é de mais valioso, adquirir, acima de tudo: conhecimento. 


20 de novembro de 2011

PIAF - UM HINO AO AMOR (2007)

Filme: PIAF - UM HINO AO AMOR (La vie en rose) - 2007
Diretor: Olivier Dahan
Países: França, Grã Bretanha e República Tcheca - 140 min.

Simplesmente por contar a vida da cantora francesa Edith Piaf (1915-1963), o filme merece todas as glórias que teve. Outro mérito deste longa de Oliver Dahan é a espantosa, mas espantosa mesmo, personificação de Piaf pela atriz Marion Cotillard. Por curiosidade e porque nunca tinha visto Piaf antes do filme, apenas ouvido, procurei no youtube videos reais da cantora e a semelhança é impressionante. A atriz, com a ajuda de uma excelente maquiagem, beirou à realidade dessa cantora que viveu momentos gloriosos e momentos muito trágicos. 

Muitos deles são mostrados no filme de mais de duas horas de duração. Infelizmente a narrativa chega a ser confusa, pois o diretor optou por retratar vários fatos da vida de Piaf de forma não linear, deixando algumas pontas de roteiro não resolvidas, como é o caso da relação de Piaf com o personagem de Gérard Depardieu, o Louis Leplée, que foi quem a descobriu e a colocou em evidência no meio profissional da música francesa da época.

Fora esse pequeno deslize, o filme apresenta cenas inesquecíveis. Uma delas é a pequena Piaf, ainda criança, cantando no meio da rua a La Marseillaise (hino da França) para conseguir uns trocados junto ao pai, que exibia seus dotes de contorcionista. O arrepio da cabeça aos pés é inevitável e além desse, muitos outros, acompanhados de diferentes emoções, surgem durante a narrativa.

Portanto, para quem gosta de música, para quem gosta de vida, para quem gosta de uma boa história, este filme é um prato cheio. 

Abaixo um vídeo da real Piaf:




E aqui um trecho do filme com a Piaf de Marion Cotillard:


15 de novembro de 2011

O SEXTO SENTIDO (1999)

Filme: O SEXTO SENTIDO (The sixth sense) - 1999
Diretor: M. Night Shyamalan
País: EUA - 107 min.

Um dos suspenses mais conhecidos do final do século XX; Revelou o pequeno ator Haley Joel Osment que na época estava com apenas 11 anos; Um dos finais mais surpreendentes que faz com que você tenha vontade de rever o filme imediatamente; Um complexo drama de ordem psicológica; Direção criteriosa e roteiro surpreendente do indiano M. Night Shyamalan. Esses são alguns motivos para que "O Sexto Sentido" seja um grande filme e estar na lista dos filmes para serem vistos antes de morrer.

E por falar em morte, ele aborda exatamente esse assunto, pois Cole (Haley Joel Osment) vê espíritos que se caracterizam por terem deixado algum assunto a ser resolvido neste mundo, mas ele não entende muito bem como poderá ajudá-las, apenas tem muito medo. O psicólogo de crianças, Malcom Crowe (Bruce Willis) será quem irá ajudá-lo a encarar o problema, a vê-lo por outra perspectiva. 

Classificado como suspense, este gênero se encaixa apenas nos momentos em que Cole é atormentado pelos 'fantasmas', pois podemos dizer que esse filme é um drama de relacionamentos. São três relações que ganham evidência, a de Cole com a mãe, a de Cole com o psicólogo e a do psicólogo com a mulher. Todos com algum conflito, com algum desentendimento.


Outro aspecto importante levantado pela crítica Joana Berry no livro "1001 filmes para ver antes de morrer" é a representação de Haley Joel Osment "(...) Osment é uma grande descoberta em um papel que, se tivesse sido representado de forma muito "fofinha", teria destruído o filme todo(...)". Ela tem toda razão. 

Eu revi esse filme recentemente na TV a cabo, talvez pela quarta ou quinta vez, não tenho certeza e continuei gostando muito do que vi. Além disso, a cada vez que revejo um filme como este, uma nova leitura pode ser feita e foi o que aconteceu. Desta vez enxerguei a complexidade psicológica da história. Às vezes há um problema nos atormentando, não sabemos muito bem o que fazer com ele, até que o enxergamos de outra forma, o encaramos por outro viés e ele se torna suportável. 

Este suspense de M. Night Shyamalan é mais do que um filme de medinhos, com toda a certeza!



2 de outubro de 2011

Conhecendo Ingrid Jonker

Ingrid Jonker, poetisa da África do Sul, que viveu muito pouco, apenas 32 anos, de 1933 a 1965, época em que o regime de segregação racial, o Apartheid (1948 a 1994) estava em pleno vigor, é a protagonista do filme Borboletas Negras (2011). Ela é interpretada magistralmente pela holandesa Carice van Houten.

Este filme biográfico traz os últimos cinco anos da vida dessa mulher sensível e intensa e da qual a maioria de nós, brasileiros, não fazíamos a mínima ideia de que havia existido. Neste recorte, a diretora holandesa Paula van der Oest evidencia a péssima relação que a poeta tinha com o áspero pai, Abraham Jonker, interpretado por Rutger Hauer (Blade Runner). Essa relação refletia o jeito dela lidar com as situações, com os relacionamentos, com a vida. Todo o desequilíbrio da poeta advém da falta de reconhecimento do pai pelo que ela é. Além de tudo, ele era grande defensor do Apartheid e membro do regime que ela abominava e pelo que podemos ver no filme, chega a ser incompreensível para ela. 

Na cena que ela está em uma praça, com brinquedos para crianças, ela pergunta a um senhor porque não vê ali crianças negras. E ele responde que é proibido crianças negras ali naquele parque. Nesta cena, é possível verificar o quanto ela não consegue compreender, pelo seu olhar, esse tipo de proibição, o quanto ela não se identifica com esse tipo de segregação. O poema mais conhecido de Ingrid, lido por Nelson Mandela em 1994 na abertura do primeiro parlamento democrático da África do Sul, intitulado The Dead Child of Nyanga (A criança morta de Nyanga) foi escrito após ela presenciar a morte gratuita de uma criança negra por um soldado do regime. Esta passagem, em que ela sente uma angustia profunda de criação, de indignação, também é retratada pelo filme. Durante toda a narrativa, a diretora nos proporciona vários momentos de criação da poeta, para assim termos contato com as imagens criadas em seus versos. Vários poemas desfilam por nós, principalmente nas paredes do quarto de Ingrid. 

Por ser uma mulher a frente de seu tempo, Ingrid não consegue lidar nada bem com o mundo que se apresenta a ela. Assim como as cenas que pontuam a narrativa, em que o mar se debate incessantemente com as rochas na Cidade do Cabo. É a imagem do que se passa com Ingrid, do que sente em relação a vida, uma alma que se debate com os sentimentos, com a falta de liberdade, principalmente para amar, para ser como ela é. Dessa forma, só poderá haver desequilíbrio emocional, fazendo com que a personagem, diversas vezes vá parar em algum centro psiquiátrico ou se retira da sociedade que não a aceita. 


Nesse turbilhão de emoções, houve alguém que a amou muito. Esta pessoa foi o escritor Jack Cope (Liam Cunningham), que a conheceu quando a salvou de se afogar no mar. O relacionamento dos dois era muito complicado, cheio de desavenças, de idas e vindas, pois a personalidade de Ingrid sufocava Jack, não permitia que ele se desenvolvesse como escritor. A convivência com alguém tão intensa o anulava completamente. Foi ele que, junto a outros escritores, conseguiu juntar em livro os melhores poemas de Ingrid e publicá-lo. 

Borboletas Negras é um filme que mostra ao mundo quem foi Ingrid Jonker. Li algumas críticas dizendo que a diretora poderia ter explorado mais a questão política, os embates da poeta com o pai, que o roteiro poderia ser melhor trabalhado, entre outras coisas. Eu acredito que a intenção da diretora não era essa, ela conta com o repertório do seu público em relação ao apartheid, não aprofunda na personalidade do pai porque a profundidade está totalmente dedicada à Ingrid. Portanto, acredito que a missão do filme foi cumprida e da melhor forma possível. Vale muito a pena ver Borboletas Negras e se arrepiar com a voz de Nelson Mandela ao final da projeção lendo "The dead child of Nyanga" e as imagens do poema aparecendo na tela. 

Abaixo, o poema: 

THE DEAD CHILD OF NYANGA


The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart


The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride
The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain
The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all África
The child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass.

7 de setembro de 2011

Os absurdos da vida em "Um Conto Chinês"

 “Um conto chinês” é muito bom de se ver. Fato determinante para que mais de um milhão de argentinos tenham se deslocado aos cinemas. Escrito e dirigido pelo portenho Sebastián Borensztein, seu terceiro longa e único que chegou ao Brasil, “Um conto chinês” é um filme simples, sem psicologismos, do tipo que nos faz bem.

A essência dessa história está nos fatos considerados absurdos da vida, como uma vaca cair do céu na China, um argentino se deparar com um chinês despejado de um taxi em plena Buenos Aires, sem falar uma palavra de castelhano, e este mesmo chinês ser o personagem de uma das notícias absurdas que são colecionadas pelo Roberto (Ricardo Darín) que todos os dias, religiosamente, as corta dos jornais. Todos esses elementos estão dispostos na história desse personagem colecionador, ranzinza, metódico que em seu momento de lazer, se depara com Jung, totalmente perdido, recém chegado a Argentina, com o endereço tatuado no braço e que posteriormente, na embaixada, ficamos sabendo que se trata do endereço desatualizado de um tio.

Ricardo Darín, um dos atores argentinos mais conhecidos pelo público brasileiro, interpreta magistralmente uma personagem à beira de um ataque de nervos. Sua irritação, seu jeito intolerante, sua forma metódica de lidar com a rotina, estão na medida certa. Não há exageros para que o espectador caia na risada. A naturalidade da interpretação, das situações, ocasionam uma identificação imediata e por consequência disso, nos é despertado o riso. E toda a doçura da narrativa está com a personagem do chinês, muito bem interpretado por Ignacio Huang, personagem contraponto de toda a antipatia de Roberto. O contato forçado entre os dois, pois Roberto se vê obrigado a ajudar Jung, faz com que uma transformação comece a ser despertada no protagonista.

Com roteiro muito bem desenhado, o filme se desenrola de forma leve e sensibilizante. Conta com a ajuda da trilha sonora marcante e ao mesmo tempo doce de Lucio Godoy (Tudo sobre minha mãe) e com a presença de uma personagem feminina que equilibra tudo, a filha de um amigo de Roberto, apaixonada por ele, chamada Mari (Muriel Santa Ana).

É filme de entretenimento cheio de qualidade e sensibilidade. Vale muito a pena assistí-lo. E ao sair do cinema, podemos dizer que de absurdos em absurdos muitas histórias são colecionadas durante nossas vidas e este “Um conto chinês” não poderia ser diferente, já que deixa bem claro que é baseado em fatos reais, pois na China, realmente, uma vaca caiu de um avião ao ser transportada por russos.


4 de setembro de 2011

Hubble 3D

Este documentário de um pouco mais de 40 minutos é uma experiência das mais fascinantes. Em tecnologia IMAX 3D, mostra a missão de sete astronautas da Nasa, que têm como objetivo trocar um dos espelhos do satélite Hubble. Além disso, são exibidas imagens de estrelas, galáxias e outros elementos do universo que um dia foram captadas pelo satélite. Este documentário, dirigido pela americana Toni Meyrs é uma viagem pelo universo. 

Essa viagem nos mostra, mais uma vez, o quanto somos minúsculos. A narrativa traz a informação de que um bom número de pontinhos de luz espalhados universo a fora, são galáxias como a nossa, constituídas de planetas em formação ou já formados. Neste momento, o cérebro dá um leve nó, pois a dimensão de tudo isso é gigantesca demais para a nossa parca mente. Esse nó também vem acompanhado de uma certa angustia. E para tentar dimensionar tudo isso, podemos dizer, talvez, não tenho tanta certeza, que a terra é um grãozinho de areia no oceano e que nós somos microorganismos, não vistos a olho nu, que caminham por esse grão achando que o mundo gira em torno de nós e acreditando muitas vezes que detemos algum poder diante da natureza. 

Hubble 3D, portanto, é uma experiência bacana de ser vivida, apesar de que, quando o astronautas estão consertando o satélite e utilizam bastante de termos técnicos, um certo desinteresse nos toma conta. Como a imagem de fundo desse momento é o planeta terra, o tédio não é por completo, pois podemos ficar contemplando a nossa casa. Portanto, vale a pena ver, apesar de que quando começa a ficar boa a brincadeira, ela acaba. 

22 de abril de 2011

A alegria de viver em Elsa & Fred

Há filmes necessários para vivermos bem, que nos cutucam. Um desses filmes é “Elsa & Fred – Um amor de paixão” (2005), de Marcos Carnevale. Uma co-produção Argentina e Espanha.

É uma divertida história de amor vivida aos quase 80 anos de vida de Fred, recém viúvo e Elsa, uma senhora com espírito jovial, daquelas que raramente levam algo a sério. Enquanto ele é o contrário, muito sério, apático, todo organizado e hipocondríaco. Os dois, depois de se tornarem vizinhos e se conhecerem por conseqüência de uma travessura de Elsa, se apaixonam. 

Podemos dizer que há uma seqüência que resume bem o espírito do filme, é quando ela o tira de casa para jantar num dos melhores restaurantes da cidade. Apesar das reclamações dele quanto ao ácido úrico da carne e ao colesterol da sobremesa, ela o faz entender que é melhor comer tudo isso enquanto pode, enquanto não há uma doença que o restrinja. Ao final do jantar, quando chega a conta, os dois concluem que é muito, mas muito cara. Ele reclama “como pode tudo aquilo por um bife e uma sobremesa?”. Ela diz que ele não está pagando só por isso, mas, sim, pela noite maravilhosa que estão tendo. E ela diz da seguinte forma “...é pela noite maravilhosa que tivemos e isto não tem preço. E quando não se tem preço, não se paga”. Simples assim. Ele não entende de primeira e ela diz “Vou contar até três. No três, nós levantamos e saímos.” Ele acha a idéia absurda, a chama de louca. Ela começa a contagem e os dois saem sem pagar. Ele fica muito nervoso com ela, continua dizendo que ela está louca, que não pode viver com essas incoerências e no carro, ele começa a passar mal, ter uma taquicardia. Ela o leva ao hospital. Lá, o médico diz que não é nada sério, pergunta se ele havia bebido muito, feito alguma refeição pesada, ou se chateado com alguma coisa. Ele, bravo, diz que fez tudo isso em menos de duas horas. O médico sai e segundos depois, os dois caem na gargalhada, vêem como a situação realmente não poderia ser levada a sério.


Elsa & Fred também demonstra que na terceira idade, após os 60, 70 anos, a vida pode ser vivida intensamente. Que dois seres, duas almas, podem se amar a qualquer momento. Que a vida não acaba, enquanto a morte não chega. Cada momento é sagrado, é pleno de ser vivido. Há tempo para se realizar sonhos. Além disso, mostra que é necessário se preocupar com o que realmente importa, os momentos alegres e prazeirosos, a vibração da alegria, o poder do bem e de estar bem. Coisas materiais, futuro, status, são apenas ilusões, besteiras, elementos desnecessários. É bom não esperarmos que uma doença nos atinja para que pensemos da mesma forma e saibamos apreciar os verdadeiros valores.


20 de março de 2011

O lado extremamente humano de um rei

A autoestima, a estima por si mesmo, está totalmente ligada à autoconfiança. Elas podem ser positivas ou negativas. São estados psicológicos que Albert Frederick Arthur George (14/12/1895 - 06/02/1952), depois nomeado George VI, rei do Reino Unido entre 1936 e 1952, tinha por si mesmo, mas totalmente negativos. E é desse tema e de mais alguns outros que trata o filme ganhador do Oscar deste ano, O Discurso do Rei, do diretor Tom Hooper.

O filme inicia-se com Albert (Colin Firth), chamado pela família real de “Bertie”, ainda com o título de Duque de York. Nas primeiras cenas, percebemos em seu semblante um transtorno, pois irá fazer um pronunciamento a muitas pessoas através do rádio. Só que há um probleminha, Albert é gago. As palavras simplesmente não saem e o constrangimento é gigantesco. Nas cenas seguintes, nos é informado que ele já havia tentado tudo quanto é tratamento, mas nada resolvido. Até que sua esposa, a Lady Elizabeth Bowes-Lyon (Helena Bonham Carter), mãe da atual Rainha Elizabeth II, descobre um novo terapeuta, Lionel Logue (Geoffrey Rush).

E é nesse momento que o filme realmente começa, pois mostra a transformação do personagem ao relacionar-se com o terapeuta. Os primeiros momentos são de intensa resistência. O terapeuta sabe muito bem o que se passa com aquele homem, mas diante de tanta resistência, é preciso muita paciência. O nobre inglês recusa-se a falar de assuntos pessoais, já que acredita que seu problema na fala se dá por alguma questão física. Desta forma, não entende a abordagem de Logue, que é tratar da origem psicológica de sua deficiência, sintoma claro de algum trauma ou construção negativa de sua autoestima.

A relação vai se desenvolvendo conforme a necessidade de Albert em melhorar a sua forma de falar, ou seja, diminuir a gagueira. Ele é um homem público e precisa, em algumas situações, simplesmente discursar. Seu pai, George V, exige isso dele. Voz, coragem, determinação, segurança. Características bem distantes da sua personalidade. Até que o pai morre, o irmão mais velho por questões morais, renuncia ao trono e Albert assume o reinado, transformando-se em George VI.

Uma das cenas mais importantes do filme acontece quando Albert, logo após a morte de seu pai, bate à porta do terapeuta e desata a contar particularidades de sua infância. Uma delas é o fato dele gostar muito de construir miniaturas de modelos de aviões, mas era impedido de construí-las, pois o pai colecionava selos e ele e seus irmãos eram obrigados a colecionar também. Em sua infância de filho de rei, não havia a mínima liberdade para fazer o que sentia prazer. Outra questão foi o fato de ter nascido canhoto, mas era punido por usar a mão esquerda e obrigado a escrever com a mão direita. Seus joelhos eram tortos e tiveram que ser corrigidos, além de declarar o pouco contato com os pais e o intenso contato com as babás, ou seja, uma criação particular que só poderia resultar em gagueira, em medo de ser ele mesmo, de demonstrar a sua essência, o seu lado esquerdo, a sua voz.


Todos esses temas e mais alguns outros, como a construção de uma amizade, são levemente abordados neste filme ganhador de algumas estatuetas. Além disso, de forma sintética, ele questiona a importância da experiência e dos títulos. Lionel Logue não possui nenhum título acadêmico, apenas experiência em curar pessoas com problemas da fala. Até certo ponto, Albert não se dá conta desse fato, mas seus conselhereiros pesquisam a vida do terapeuta e descobrem o fato. Lionel chega a ser questionado pelo próprio paciente e ali mostra o quão desnecessário podem ser os títulos, as formalidades, as nomeações e além disso deixa bem claro que nunca solicitou ser tratado como Doutor, mas sim, pelo nome, pois acredita na igualdade entre os seres, tão esquecida pela grande maioria dos seres humanos. Além disso, deixa evidente que encara a vida como um teatro, pois todos desenvolvem papéis e seguem todas as marcações. As pessoas dificilmente são elas mesmas.

Desta forma, podemos dizer que O Discurso do Rei é uma história rica em valores. Uma história retirada da realidade de uma família nobre, muito bem conhecida de todos. Vale a pena assistí-lo para quem ainda não viu e vale a pena revê-lo quem já assistiu, só para absorver detalhes que passaram desapercebidos. E se possível, absorver os valores que andam tão esquecidos diante de tantas máscaras, papéis e teatros que andamos encenando pela vida.



O pé esquerdo do escritor, pintor e poeta Christy Brown

Meu pé esquerdo é a história de um homem real, o irlandês Christy Brown (Daniel Day-Lewis), escritor, pintor e poeta que nasceu com paralisia cerebral. O filme é baseado no livro escrito por ele, exatamente com o pé esquerdo, seu único membro que possui movimento.

Jim Sheridan, diretor irlandês, conta a história deste homem que enfrentou diversos obstáculos para ser reconhecido pela família e pela sociedade. Em meio a treze crianças de uma família humilde e católica da Irlanda, ele lutava para demonstrar que sua mente não era paralisada como seu corpo. Seu pai acreditava que o filho, além de não ter todos os movimentos, também era um débil mental. Mas ele consegue conquistar o respeito do pai, numa cena marcante em que ele escreve, com um esforço tremendo, com um giz branco entre os dedos do pé, a palavra “mãe” no assoalho de sua casa. E é com este mesmo pé que ainda criança começa a pintar e no final da adolescência é reconhecido como um grande artista plástico. Para que ele se tornasse tudo isso, esteve ao lado dele, o tempo todo, uma figura de extrema importância, sua mãe.

A fortaleza dessa mãe fica muito nítida pela lente desse diretor irlandês. Se olharmos mais atentamente para este filme, podemos não enxergar apenas a vida deste paralítico, mas a história dessa mãe e sua significação na vida de Christy. Uma mulher que gerou 22 filhos, dos quais sobreviveram 13. Fica nas entrelinhas o fato de que por ser uma família católica, ela não utilizava nenhum método contraceptivo. Além disso, na época o patriarcalismo era um valor muito forte. A quantidade de filhos gerados por um homem demonstrava o quão viril ele poderia ser. Com todas essas questões, essa mãe demonstra uma força gigantesca ao cuidar dessa casa e desse filho. É bom ressaltar a cena que ela, grávida, sobe as escadas com Christy nos ombros, já com uns sete anos na época. Exausta, larga o garoto em uma cama e desce as escadas correndo para pedir ajuda, pois começa a passar mal. Essa cena é só a demonstração da força física dessa mãe. Ao longo da história, a sua força moral também vai ganhando espaço e importância. É ela quem incentiva o filho a colocar a marca dele neste mundo, é ela que entende o que ele tenta dizer às pessoas, é ela quem apresenta a ele suas crenças religiosas, é ela quem o estimula a pintar, é ela que percebe quando ele se apaixona por uma médica e morre de medo de ver seu filho com o coração partido. Além de tudo isso, é ela que faz com que ele saia de uma crise depressiva, pois chega a dizer “Christy, eu acho que você é o meu coração, não suporto te ver assim” e de uma forma inesperada, começa a construir no pequeno quintal aos fundos da casa, um quarto para que o filho pudesse ter mais privacidade e espaço para voltar a pintar.

Outra análise que podemos fazer é dimensionar a contribuição deste homem para a visão de mundo em relação a pessoas com paralisias. Ele pôde mostrar que é tão artista quanto artistas que pintam com as mãos. Que é tão escritor quanto àqueles que possuem todas as habilidades motoras. Que deve ser respeitado e tratado como qualquer outro ser humano.

Além disso, fica claro no filme que diante de tal circunstância sua sensibilidade ficou muito mais aflorada. Primeiramente o senso de justiça dele é claro. Desde pequeno quando renega todas as brutalidades do pai. A sensibilidade aguda também faz com que transporte para os quadros seus sentimentos, as particularidades das feições de sua família e das pessoas a quem ele admira, como a médica que cuida dele na adolescência. E é através da arte de escrever que conta sua história de forma sensível. Já nas cenas finais, um trecho de sua obra é lida pelo anfitrião de uma festa beneficente.“Eu nasci no Hospital Rotunda, no dia 5 de Julho de 1932. Foram 22 filhos, ao todo, dos quais treze sobreviveram. Estaria mentindo se dissesse que não estou mais só. Consegui me fazer compreender por pessoas do mundo todo sendo ou não aleijado. Como todos, tenho aguda consciência do meu isolamento ainda que em meio aos outros. Com freqüência abro mão da esperança de realmente me comunicar com eles.(...) Escritor ou artista deve viver se quiser criar o que quer que seja. É como uma nuvem negra que surge inesperadamente e me separa dos outros, uma espécie de mudez surda. Reclino-me em minha cadeira enquanto meu velho pé esquerdo marca o tempo de um novo ritmo. Agora eu poderia relaxar e me divertir completamente. Eu estava em paz, feliz.”


Talvez seja essa paz e essa felicidade que tanto buscamos e não sabemos muito bem onde encontrá-la. A simples paz de ser reconhecido e ouvido. Mas, na minha opinião, o melhor da felicidade está em ser compreendido, em poder contribuir de alguma forma, mesmo que numa pequena fração, com a evolução, com o auto-conhecimento de alguém. Provavelmente, Christy Brown, em sua época, fez com que muitos compreendessem sua condição e adquirissem respeito. A sua vida foi uma aula para, primeiramente, sua família e depois a sua sociedade. E para verificarmos a dimensão da importância de sua existência, estamos hoje, há 30 anos de sua morte, falando dele.

Christy Brown faleceu em 1981, aos 49 anos, por asfixia. Este filme foi feito 8 anos depois de sua morte, em 1989, e ganhou diversos prêmios, sendo um deles o Oscar de melhor ator para Daniel Day Lewis que o interpreta magistralmente. É mais uma lição de vida, de auto estima, de coragem e resignação. Como sabemos, cada um está no lugar que deve estar.